quinta-feira, 13 de março de 2014

LEVANTAI-VOS E VAMOS EM FRENTE

 

Georgino Rocha  |  Justiça e Paz – Aveiro

Jesus proporciona aos seus amigos mais íntimos uma experiência surpreendente e gratificante. “Que bom estarmos aqui” – diz Pedro em nome do grupo. A experiência inicia-se quando Jesus os toma consigo e, na sua companhia, sobe à montanha. Que terão pensado no percurso, eles que não se haviam refeito do susto do anúncio da paixão e permaneciam abatidos perante o desabar das suas encantadas ilusões! Confiam mais uma vez no Mestre, acolhem o convite/apelo e lançam-se na aventura. Acontece algo de extraordinário que lhes provoca tal satisfação que Pedro se propõe “armar” tendas para assim continuarem indefinidamente. Da desilusão ao encantamento!

Era o coração humano a falar, a expressar o desejo intenso de felicidade, a antecipar o sonho de estar sempre com o Senhor. Era a voz da consciência a libertar as aspirações mais profundas que, tantas vezes, permanecem caladas ou são mesmo silenciadas. Santo Agostinho salienta esta marca indelével do ser humano que vive inquieto e peregrino enquanto não encontra Deus e se senta no seu colo de Pai.

Os amigos de Jesus surpreendem-se pelo que vêem e ouvem: rosto cheio de fulgor e vestes repassadas de brancura. O narrador do sucedido recorre às imagens do sol refulgente e da luz irradiante para expressar a novidade do que está ocorrendo, imagens simbólicas que apontam para realidades sublimes e originais. Jesus deixa ver a dimensão profunda da sua figura humana de modo que os amigos se deparam com a realidade divina que os deslumbra. E ficam cheios de admiração e encanto.

A transfiguração do Mestre infunde-lhes novo ânimo e renovada esperança. Afugenta as tentações de desistência e abandono. Revigora a força da opção feita de seguir em frente. O testemunho de Pedro, Tiago e João é claro e aliciante: Contemplar o rosto de Jesus é fonte de transformação interior com enormes consequências na vida. Vale a pena levar Jesus a sério.

Seguir em frente, rumo a Jerusalém onde irão ter lugar os acontecimentos pascais que adquirem sentido pleno com a ressurreição, agora vislumbrada na transfiguração e em tudo o que a envolve. Seguir em frente e acolher a voz de Deus Pai, escutar Jesus o seu Filho muito amado. Seguir em frente e libertar-se de todos os medos que prostram e inibem, deixar-se tocar pela mão amiga que reconforta e aproxima, erguer o olhar e fixá-lo em Jesus humanizado. Seguir em frente, levantando o ânimo e comunicando entusiasmo, mostrando a bondade e a beleza que há em nós, transformando em boa notícia as atitudes generosas de tantos voluntários da vida digna, do trabalho adequado e para todos, do preço justo, do salário “decente”.

Seguir em frente. A humanização das relações pessoais e dos laços familiares, a ética na economia e na política, a cultura da vida e a civilização do amor fazem brilhar na sociedade o rosto sorridente de Deus Pai. E a transformação do mundo acontece sempre que o coração se converte e transfigura.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Seminário CES - "Os problemas e as soluções para a Segurança Social"

O Observatório sobre Crises e Alternativas do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra vem por este meio convidá-lo/a a participar no seminário "Os problemas e as soluções para a Segurança Social", que terá lugar no próximo dia 25 de março, no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. 

Enquadramento

No âmbito das Oficinas de Políticas Alternativas, o Observatório sobre Crises e Alternativas organiza um seminário de apresentação dos trabalhos realizados nas Oficinas sobre a Segurança Social. Os temas dos trabalhos incluem: concertação social, relações laborais e segurança social; redistribuição e/ou universalismo; as crises desde 2008, o Programa de Ajustamento e os OSS; pensões; financiamento da Segurança Social, plafonamento e capitalização; assistência social e equipamentos; emprego/desemprego e proteção social; precários e trabalhadores independentes; combate à fraude; sistemas de informação e projeções; protecção social e desigualdades.

Programa

14h30 – Abertura, Francisco Louçã

15h00 – Apresentação dos trabalhos das Oficinas, José Luís Albuquerque

15h30 – Mesa redonda e debate com a presença de autores/as dos trabalhos e comentários de Pedro Marques, José Barrias, Paula Bernardo, Luís Capucha e Henrique Sousa

Moderação: Fernanda Câncio

18h00 – Encerramento, Manuel Carvalho da Silva

Autores/as: Cláudia Joaquim, Fernanda Rodrigues, Frederico Cantante, Hugo Mendes, José Luís Albuquerque, Manuel Carvalho da Silva, Manuel Pires, Marco Marques, Maria do Carmo Tavares, Mariana Trigo Pereira, Paulo Pedroso, Renato Miguel do Carmo, Ricardo Moreira, Rosa Coelho Fernandes, Tiago Gillot, Vítor Junqueira.


Inscrições


A entrada no seminário é gratuita,  mas sujeita a inscrição prévia através deste formulário online.

Invasões e evasão

 

M. Oliveira de Sousa  |  Justiça e Paz – Aveiro 

O cidadão comum – aquele cuja vida é orientada por processos simples alicerçados em valores, com olhar atento à realidade que o rodeia e participação ativa na transformação do mundo – fica estupefacto com estes movimentos de invasão; chegam a provocar urgência de evasão, de fuga do mundo – dando razão, porventura, mais uma vez, a Rosseau e à “teoria do bom selvagem”: o homem por natureza é bom, nasceu livre, mas sua maldade advém da sociedade que, com a sua presunçosa organização, não só permite mas impõe a servidão, a escravidão, a tirania e inúmeras outras leis que privilegiam as elites dominantes em detrimento dos mais fracos, reiterando assim a desigualdade entre os homens, enquanto seres que vivem em sociedade.

O cidadão comum compreende a antiguidade, com territórios sem Estado, construída ao fio da espada, de ambições tirânicas, sem uma organização e uma sociedade de nações, sem protocolos estabelecidos baseados na construção da paz e do bem comum!? O cidadão comum resigna-se perante as invasões helénicas (no século XX, a. C), dos Celtas (480 a.C.), do Império Romano (218 a.C.), dos Bárbaros (entre 300 e 800), das invasões muçulmanas (a partir de 711). Até compreende as invasões mongóis no oriente Japão (1274-1281)!

As invasões francesas e napoleónicas, do século XVIII-XIX, bem mais perto no tempo, como consequência da Revolução Francesa e início da luta entre a França revolucionária e a Europa conservadora levantam estupefação!

Mas passado este período, já cria assombramento como a opulência, soberba, cegueira e ambição desmedida de uns conduziram à Primeira Grande Guerra (de 28 de julho de 1914 até 11 de novembro de 1918).

E a Invasão da Polónia em 1 de setembro de 1939!? – assustador tanta semelhança com o tempo presente!

E as coincidências continuam! Quando um grupo de separatistas de uma província – uma província?! – resolve rebelar-se contra o governo central conduzindo à Guerra do Kosovo (24 de março a 3 de junho de 1999), à intromissão da NATO e à consequência geoestratégica que mais interessava à mesma organização, sem medir o alcance do disparate!

E depois surgiu a Guerra na Ossétia do Sul em agosto de 2008…

A Crimeia!

Com tantos cenários complicados de entender, num mundo que tem a Organização das Nações Unidas como “mesa” de encontro, o cidadão comum deseja a evasão! Mas para onde?

O mundo terá de cuidar do trigo e não perder a paz por causa do joio.

segunda-feira, 10 de março de 2014

D. António Francisco, o Bispo da Bondade:breve ensaio testemunhal.

 

Pedro José Lopes Correia  |  Justiça e Paz – Aveiro

 

“A tentação é querer suprimir o tempo, o espaço, o esforço, as mediações.

Pensamos que felicidade é a conquista imediata de um bem que imaginamos.

Mas perceberemos que logo após conquistá-lo, a felicidade se desloca como se fosse o horizonte.

Nunca teremos a felicidade nas mãos, pois nunca conseguiremos segurar o horizonte” J.B. Libânio.

Se quiséssemos tentar caracterizar brevemente o nosso Bispo, que nos deixa «agora» (…ele que foi “nomeado”, foi “tirado”, foi “roubado” – sabemos da forma não estilística das aspas -, foi(-se) entregue(ar) a uma Cruz maior…; para viver uma Páscoa melhor…) diríamos com simplicidade: D. António Francisco, o Bispo da Bondade. Aliás, era esse o desafio pastoral na preparação conjunta da «Missão Jubilar». Foi retirado. Foi saneado. Nós os “padres especialistas de muitas coisas…” recusamos, democraticamente, esse registo de síntese. A dose não podia ser digerida! Temos medo da Bondade! A Bondade, ainda, não nos libertou!

Essa “sua” Bondade ministerial não pode agora dar lugar ao ressentimento. À moral da vítima (não estamos num processo de vitimização, mas de ressurreição, a Cruz porque “passamos” será Páscoa). A questão não é ser, ou não ser, “piegas”, “fraco” ou “indisposto”. É, verdadeiramente, ser ou não ser, “bondoso”, “decente”, ou “disponível”. Se, como cremos, a virtude da Bondade pode ser ensinada, é mais pelo Testemunho do que pelas homilias, pelos decretos nas nomeações, ou pela presença em incontáveis reuniões.

Porque mais que acusar e denunciar os vícios, o mal e pecado. Sua preocupação foi “Anúncio”, humilde, abnegado e eclesial. “Vamos fazer juntos”. “Sua” Bondade é histórica. Feita da “sua” consciência rural e citadina (…sinais vindo de “Lamego” a “Paris”…como não podemos perceber e saborear, isto, Deus nosso!?). - Bondoso, demasiado bondoso… não é mal: é cura e libertação! Trata-se de agora que parte não sermos indignos dessa «Bondade», que viveu e semeou no meio das nossas comunidades, e principalmente, em nossas vidas, em jeito personalizado.

A “sua” Bondade, diria, por experiência na carne e na alma, é virtude da Dádiva. Dádiva em dinheiro (nisto nos tocou na liberalidade da “sua” carteira aberta…), dádiva de si (nisto nos tocou na “sua” magnanimidade, e mesmo sacrifício saído do coração…). Mas não podemos dar senão o que possuímos, e apenas se não somos possuídos por isso. Nisto a “sua” Bondade foi/é indissociável de uma forma de liberdade evangélica ou autodomínio “maduro e sapiente”. O “seu” OBRIGADO exausto e repetitivo nos purifica!

Um ministério da Bondade com rosto de Misericórdia, foi o “seu” em todas as inesgotáveis horas da sua entrega generosa. Numa “sua” insistência feita de pedagogia e mistagogia. A bondade como a Coragem de Ser. A misericórdia como a chave dos Mandamentos. A Bondade e a Misericórdia como duas faces da mesma moeda do Perdão: para reconciliar a humanidade ferida. A Igreja como hospital espiritual das doenças materiais: consumismo; corrupção e violência. O bispo que é profeta da fragilidade e da proximidade.

Há um ministério (isto é, serviço) de Esperança, de Comunhão e sobretudo Bondade, construído solidamente nas «Bem-aventuranças», que nos ensinou a viver com o “seu” Testemunho, de bispo e irmão, na Fé que permanecerá entre nós como Memória e Desejo, a cumprir. Bem haja D. António Francisco por ser “o” Pastor que foi e é, para a Diocese de Aveiro. Que a Diocese do Porto confirme o que em nós foi Dom e Profecia «já» realizados.

 

09-04-2014. (NB) Foi importante para a redação deste «breve ensaio testemunhal» a releitura de: COMTE-SPONVILLE, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Editorial Presença, Lisboa, 1995, pp.95-112.

quinta-feira, 6 de março de 2014

LIBERTA-TE E VEM COMIGO

 

Georgino Rocha  |  Justiça e Paz – Aveiro

Jesus dá o exemplo e faz o apelo. Após o baptismo vê confirmada a sua dignidade de Filho de Deus que vê questionada ainda antes de iniciar a missão pública. Mateus – o narrador do episódio – elabora um diálogo provocador entre dois contendores: O tentador com as suas propostas sedutoras e Jesus com as suas respostas contundentes. Umas e outras afectam o núcleo mais consistente do ser humano e constituem o espelho mais polido da ”trama/drama” da nossa existência. Dão por suposto o reconhecimento da realidade assumida – a novidade da missão de Jesus – e procuram fazer a sua interpretação, descobrindo e reencaminhando o sentido original.

O tentador centra a sua provocação na fome e, consequentemente na necessidade de pão. Ontem como hoje, mas agora agravada exponencialmente. Em todas as dimensões da realização integral de cada pessoa. Como consegui-lo? O desafio é pertinente. A proposta parece aliciante: Que as pedras se transformem em pão. E Jesus podia fazê-lo. Porém a recusa surge espontânea e esclarecedora. O pão é preciso, mas a maneira de o arranjar está confiada ao homem, ao seu trabalho honesto, à sua organização laboral, à gestão de recursos, ao preço justo dos valores, à sobriedade de vida, à economia social em que todos participam. Como ensina a Palavra/Lei de Deus. Esta resposta liberta o homem das amarras da inércia irresponsável e da dependência doentia. Reforça e restitui a nossa capacidade de gerir a vida e de nos organizarmos em sociedade. Reencaminha o homem para si mesmo, libertando-o da alienação e do facilitismo.

Vencido, mas não convencido, desloca a tentação para o religioso, o brilho do espectáculo, o esplendor do cerimonial, o prestígio de quem pode ser acompanhado por forças especiais. O pináculo do Templo era o local indicado. O êxito estava garantido. Que mais poderia desejar o provocador? Jesus, em resposta curta e incisiva, não lhe dá tréguas e recentra o sentido da sua vida, insinua o caminho da sua missão. Dá um não rotundo à religião espectáculo, ao culto das aparências ilusórias, à ostentação de insígnias reluzentes e credenciadas. Quer ser obediente ao projecto de Deus que se realiza na sinceridade do coração, na simplicidade do 

amor fraterno, na humildade do serviço. Que contraste de perspectivas e que “abanão” para as consciências instaladas no que apetece e parece bem.

As provações recusadas levam o tentador a fazer um desafio original e, para ele, decisivo. Explora o instinto da posse de bens, a apetência por ser poderoso e dominar, o desejo irreprimível de viver seguro, ainda que sacrificando a liberdade dos outros. E promete “mundos e fundos”. Exige apenas um preço a pagar: que Jesus se vergue perante ele, se prostre e o adore como um deus. A reacção de Jesus deixa perceber que a provocação atingira o auge, era intolerável. “Vai-te, Satanás”. Sai da minha presença. A minha atitude está defenida: De joelhos perante Deus; de pé firme perante os homens. É esta a minha missão: erguer os caídos, animar os abatidos, levantar os prostrados pelas tiranias.

Ter, amar, poder constituem três núcleos da identidade humana onde ocorrem as derrotas/victórias mais decisivas da história. A vida de Jesus mostra com abundância de factos que o serviço por amor é o caminho do êxito pleno. Por isso, continua a segredar-nos: liberta-te e vem comigo.

terça-feira, 4 de março de 2014

CONFIA EM DEUS E FAZ O QUE PODES

 

Georgino Rocha  |  Justiça e Paz – Aveiro


A vida humaniza-se por meio das escolhas que fazemos. Somos colocados continuamente perante o desafio de organizar a nossa escala de valores, dando prioridade aos mais importantes e decisivos. À luz do bem definitivo e supremo. Não apenas da satisfação imediata, que deixa um vazio angustiante. Seria, a título de exemplo, o caso do sedento que encontra uma fonte e não cessa de beber pelo prazer que sente enquanto não esgotar a fonte. E depois, perante nova necessidade? O momento feliz dá passo à situação de ansiedade traumatizante. Qual de nós não passou por experiências semelhantes? E que bom seria que todos soubéssemos valorizar o momento no todo do tempo que nos é dado viver! O Papa Francisco elogia esta sabedoria.
Jesus conhece bem o ser humano e, por isso, faz-lhe propostas de aprofundamento dos seus ritmos vitais e oferece-lhe ensinamentos que rasgam horizontes de infinito às suas aspirações mais profundas. E lança o apelo/convite à aceitação cordial, ao seguimento coerente, ao realismo consciente, à caminhada persistente que, passo-a-passo, se aproxima da meta desejada. “A cada dia basta o seu cuidado” – garante aos discípulos como forma de expressar e viver a opção pelo reino de Deus e a sua justiça.
O método que usa é o do contraste pedagógico: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. A linguagem é taxativa. Não admite subterfúgios. O coração humano – que é único e original - só tem espaço definitivo para um absoluto. Em Deus está a medida infinita ,medida que se reduz o suficiente para se adaptar bem às capacidades e limites, aos ritmos apaixonados, às ânsias insatisfeitas de cada um de nós.
O dinheiro surge como o conjunto de bens com pretensões de absoluto, de deus ao serviço das satisfações de momento, das cobiças absorventes, das preocupações obsessivas. Assim, fecha o coração, desfaz a relação, desvia a aspiração, desestrutura a hierarquia de valores, inverte as prioridades na escala da vida pessoal e social. “Esta economia mata” – garante Francisco na exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”.
“Confia em Deus e faz o que podes” é certamente a atitude cordata a ter pelos discípulos/cristãos. E, como um bom mestre contemplativo da natureza, Jesus aduz o exemplo das aves do céu e dos lírios do campo, a superioridade da vida e do corpo em relação ao alimento e ao vestuário, a primazia da solicitude de Deus pelo/a homem/mulher que sabem confiar no seu amor paternal.
Que exortação tão humanizante! Serena o espírito, liberta energias atrofiadas pela ansiedade, reduz o stresse de quem vive antecipadamente o que não chega a acontecer, concentra forças e recursos naquilo que é possível, refaz a confiança e potencia capacidades. Traça e realiza o perfil do homem novo que Jesus preconiza nas bem-aventuranças.