domingo, 30 de dezembro de 2012

“Voltaram à sua procura” (*)(Lc 2,45)

 
Pe Pedro José L. Correia | CDJP.Aveiro
Reflexões: Ano C – Sagrada Família, Lc 2, 41-52
         Disposição 1. – A dinâmica da procura define os rumos da vida. A vida de cada um depende daquilo que se procura. As diferentes direções tomadas na vida dependem daquilo que se procura. O que se procura define e determina o que é a vida de cada pessoa. É importante ter claro o que se procura.
          Disposição 1.1. – Pode-se procurar pela força do amor. Quem procura por amor encontra os frutos do próprio amor. Procura-se também por outras tantas razões. É preciso procurar sempre. Importa, pois, procurar o que dá garantias de fecundidade para a vida. Toda procura inclui, então, a purificação de motivações para permitir, como resultado da procura, o encontro de tudo o que garante e promove a vida plena (…que se vai plenificando). Amadurecemos na procura.
       Disposição 2. – José e Maria procuraram Jesus. Pensavam que estivesse na caravana, no retorno de Jerusalém, aonde tinham ido para a festa da Páscoa, caminharam um dia inteiro. O imprevisto tomou conta das suas vidas. O caminho conhecido e a rotina, deram lugar à angústia e à anormalidade. Fizeram-se ao caminho. Não há soluções, há caminhos a percorrer.
            Disposição 2.1. – Procuram por Jesus. Aquele que é procurado justifica, com razões de sobra, o esforço do retorno e a recompensa da espera no reencontro. Não era uma procura qualquer. Era a força do amor que multiplica o desejo da procura. Na raiz estava o Amor. Só encontra quem por amor procura o que é importante e indispensável encontrar e conservar no coração. O encontro do que vale e a sua conservação no coração é tudo. “Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”. Essas perguntas atingem o coração de Maria, que é Mãe. Atingem e frutificam – porque podam… - o coração de todos os que procuram. O coração é o lugar para fecundarem todos os nossos desejos de procura, com a força do Amor. Conta o esforço de obediência à procura interior: enquanto fidelidade “na sabedoria, na estatura e na graça”. Nossa admiração será (já é…) reconhecimento.
           (*)FONTE: Resumindo, seguimos de perto, apenas com poucas «divagações»: AZEVEDO, Dom Walmor Oliveira, “Voltaram à sua procura” in Na Escola do Salvador, Editora PUC Minas, Belo Horizonte, 2009, pp.301-304. Obs. Registo de nota para-litúrgica de humor divino: por duas vezes, os «Diáconos Permanentes, diferentes em duas paróquias…» - de irrepreensível generosidade a toda a prova…-, não leram o Evangelho próprio; uma das vezes, foi outro o do Ano A, ou B… o que fala dos pastores… S. Mateus!?, e não o do ano C, de Lucas; na outra vez antecipando já o dia de Nossa Senhora, Mãe de Deus… voltando aos Anjos. Nunca interrompi, pois a minha infindável lista de «atos falhos», não mo permitiria. Graças a Deus que na assembleia já há leigos a dizer: -Sr. Padre não foi lido o evangelho indicado!? Tudo para reter, também que eu me perdi (e perco repetidamente) nas homilias, até aonde há «pré-texto», mesmo ausente e desprogramado!? E, também, me encontro no humor divino que me procura a mim na contramão!? Assim me aconteceu, assim apreendo a ler, isto é, a ser encontrado durante a procura. Por: Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação, 30-12-2012. Caracteres (esp.incl. com notas): 3178.





sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

BEM-AVENTURANÇAS DA FAMÍLIA


 
Georgino Rocha | Comissão Justiça e Paz - Aveiro
A família de Jesus, Maria e José, inspira um modo de vida onde brilham valores altamente humanizantes para todos os tempos. Enuncio, apenas, alguns em jeito de bem-aventuranças e faço votos para que a família estruturada e feliz continue a atrair e a mobilizar as energias de quem se dispõe a promover o bem integral da humanidade.
Feliz a família que se preocupa mais em ser um lar do que em ter uma casa, em dialogar a sério do que em falar simplesmente de algo que ocorre, em partilhar o que possui e tem do que em dar uma esmola ou fazer um empréstimo beneficente, em viver a fé cristã do que em recorrer a orações devotas e a ritos religiosos, em cultivar o amor oblativo sobrepondo-o a tudo do que em ter gestos ocasionais de tolerância e desculpa, em confiar nos filhos e honrar os anciãos, em cuidar dos mais frágeis e incluir os marginalizados, em construir progressivamente uma sociedade melhor do que em apreciar os bens acima das pessoas, em alimentar receios e preconceitos, isolar-se no egoísmo do “salve-se quem puder” e temer o futuro enegrecido pela insegurança.
Felizes as famílias que se esforçam por ser sementes de novas famílias, alicerçadas no amor heterossexual fiel e fecundo, abertas à relação recíproca dos seus membros, inseridas e solidárias na sociedade, crentes e confiantes na amizade de Jesus Cristo, o peregrino de todos os caminhos da vida e o defensor justo de todas as causas humanas.
A família humana – dizia-o João Paulo II na ONU – significa o contributo fundamental que o cristianismo pode dar à tarefa educativa: cada um é atendido conforme as suas necessidades, todos vivem relações de reciprocidade e fazem circular os dons de gratuidade, avivam a consciência da mútua dependência, habilitam-se para ocupar o seu lugar e desempenhar a sua função.
Família humana, comunidade natural recriada pelos seus responsáveis onde velhos e novos, frágeis e fortes, sãos e doentes, homens e mulheres crescem na bondade e alimentam a alegria de viver.





segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

QUE DEVEMOS FAZER?


Georgino Rocha – CDJP-Aveiro
Pergunta simples que manifesta a vontade da coerência de atitudes com a descoberta da verdade. Pergunta feita, não individualmente mas em conjunto, por multidões, publicanos e soldados que se dirigem a João Baptista. Pergunta que desvenda a eficácia do anúncio da Boa Nova, a força do testemunho de João e a acutilância da sua palavra.
A resposta, segundo narra Lucas, sai pronta e assertiva: repartam os bens, pratiquem a justiça, amem e promovam a paz. Ontem, como hoje. Àqueles que a ouvem nas categorias apresentadas segundo a organização social de então ou em linguagem mais do nosso tempo: os homens da violência e da guerra, os profissionais da máquina administrativa e da fiscalização legal, os reguladores dos circuitos comerciais e respectivos produtos.
Hoje, face à escassez crescente de bens para uns e o acumular de riqueza para outros, repartir é a palavra de ordem portadora de boas notícias; face à corrupção e à fraude, a
verdade e a honradez constituem imperativo ético e jurídico; face a comportamentos individuais e insensibilidade de minorias abastadas urge contrapor atitudes solidárias, fruto da consciência crítica e libertadora.
A sábia resposta de João levanta uma dúvida ao povo ouvinte. Não será ele o Messias? A expectativa era enorme e fazia parte do património de esperança de Israel. Não, não sou – responde sem reticências. E, em jeito de esclarecimento, adianta: “está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias”.
O olhar e o coração dos ouvintes convergem agora naquele que é a novidade de Deus, que vem “joeirar” os corações, e destrinçar o trigo do bem e a palha do mal, baptizar com o fogo do Espírito Santo. João cede o lugar a Jesus que credencia aqueles sinais e lhes dá um novo alcance, o de serem sinais/acontecimentos de salvação.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

POR UM NOVO ESTILO DE VIDA

Georgino Rocha   |  CDJP-Aveiro

Chega-nos um apelo forte vindo das margens do Jordão. É seu arauto João Baptista, o profeta precursor de Jesus. A sua voz surge como um grito de alarme, um convite à mudança de modos de vida, um apelo a transformações radicais. E junto ao rio, vai clamando em linguagem telúrica e metafórica: Endireitai o que está torto, alteai vales, abatei montes e colinas, aplanai arestas escarpadas, alinhai veredas e preparai o caminho do Senhor.
Esta mensagem interpelante recebe-a João de Isaías e serve de pórtico de entrada à missão de Jesus. É mensagem de urgência inadiável. “Está em jogo” a salvação que Deus oferece a quem a receber e for coerente, salvação que será vista por toda a criatura. Jesus confirma o alcance da pregação de João e abre-lhe horizontes inovadores. A comunidade cristã credibiliza o seu testemunho na medida em que lhe for fiel. Cada um de nós será autêntico discípulo se adoptar o estilo de vida correspondente.
O estilo de vida “ao jeito de João Baptista” reveste características de justiça, de solidariedade e de mística.
De justiça que ama a sobriedade de bens e cultiva a simplicidade de vida; que reconhece a importância das estruturas e luta por estarem adequadas à dignidade humana e à convivência social com espaço para todos; que denuncia tudo o que oprime capacidades e aspirações, cerceando horizontes e amortecendo sonhos de felicidade. Não se conforma com paliativos, ainda que provisórios, nem com protestos, ainda que veementes, nem com qualquer lenitivo, ainda que benfazejo. A justiça digna do ser humano é o reflexo do Deus justo, da paz na humanidade, da fraternidade entre todos os que se sentam à mesa comum e beneficiam dos bens correspondentes.
Outra característica diz respeito à solidariedade que expressa e renova relações entre pessoas, que gera vínculos entre instituições, contratos e parcerias entre voluntários, espaços de diálogo e convívio entre gerações, elos de proximidade distante entre utilizadores da rede virtual. Não se satisfaz com intervenções pontuais, sempre precisas em caso de emergência, nem com medidas assistenciais, sempre necessárias em situações precárias de miséria.
A solidariedade é “coisa” de Deus que não abdica do seu projecto histórico de ajudar o homem a ser homem, sua imagem e semelhança na criação, e seu filho na redenção salvadora alcançada por Jesus Cristo. Ser solidário “ao estilo de Jesus” é viver o seu amor incondicional a todos em todas as circunstâncias e correndo todos os riscos. Sem homens/mulheres marcados por este estilo de vida, as estruturas ficam esqueléticas, a convivência social torna-se campo de rivalidades, ainda que disfarçadas, e a ordem estabelecida impõe-se como “colete-de-forças” que espartilha os melhores esforços e aprisiona as mais generosas intenções.
João Baptista “bebeu” no deserto o espírito que dá sentido ao seu estilo de vida. Deserto do silêncio para escutar a voz de Deus e assumir a palavra que quer dirigir à “cidade” dos homens; deserto de aparências e supérfluos que realça o “essencial”, o sentido fundamental da existência, deserto de tentações sedutoras que assaltam o coração e procuram reencaminhá-lo para satisfações fugazes.
O apelo/convite está feito. Outrora por João e por Jesus. Agora pela Igreja e pela consciência. Pretende libertar-nos de tudo o que nos amarra e impede de sermos nós mesmos. Por isso exorta-nos a estarmos atentos na escuta e a sermos sóbrios no uso dos bens, generosos na partilha, condoídos na solidariedade, dedicados na proximidade, confiantes no Senhor que vem e já nos faz ver as “pegadas” dos seus passos na nossa humanidade