sexta-feira, 19 de julho de 2013

“LUMEN FIDEI” - Em 15 FRASES SOBRE A FÉ -

 
Pe Pedro José Lopes Correio  |  Justiça e Paz – Aveiro

Apresentamos uma leitura, em síntese, através de frases “lapidares”, de frases “desbloqueio”, de frases “chave e fechadura”, da encíclica que foi assumida, como escrita a quatro mãos (Bento XVI e Francisco, cfr. nº7, acaba por ser escrita apenas pelo teólogo papa (emérito) Joseph Ratzinger, o seu estilo é inconfundível!). Comecemos pelas frases em que a encíclica diz «o que não é a Fé». A ordem e os sublinhados são também da nossa autoria. Primeiro, deparamos com a dimensão da Disposição Negativa
1. “A fé não é um facto privado, uma concepção individualista, uma opinião subjectiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio” (nº22, p.30).
2. “(…) a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos” (nº34, p.45).
3. “É impossível crer sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o «eu» do fiel e o «Tu» divino, entre o sujeito autónomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao «nós», verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja”(nº39, p.53).
4. “A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade” (nº53, p.70).
5. “A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho” (nº57, p.75).
Segue-se uma clarificação que esconde e mostra a dimensão privada e pública da Fé. Dimensão da Decisão. Decisão provocada pela consciência do DOM. Cortar o que está a mais. Não recorremos às eruditas citações, dentro e fora da Tradição cristã, enumeradas na encíclica, porque queremos demonstrar a “pureza” da reflexão do Magistério, hoje, no seu dizer à humanidade nova. Nos ombros dos nossos antepassados conseguiremos ver mais longe com os olhos da Fé actuais?
6. “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o Seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida” (nº4, p.10).
7. “A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama pelo nome” (nº8, p.15).
8. “A fé é um dom gratuito de Deus, que exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho luminoso do encontro entre Deus e os homens, a história da salvação” (nº14, p.21).
9. “A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na Sua ressurreição na carne; é fé num Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história” (nº18, p.25).
10. “A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão” (nº42, p.71).
11. “A fé afirma também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas as nossas negações” (nº55, p.73).
Concluímos com um terceiro agrupamento, completando a nossa redução às 15 frases (poderiam ser mais ou menos) entrando na dimensão da Diferença ou Drama. Eis o filão genético e evangélico da Fé. Quais os limites? Entre o possível e o impossível. A metáfora da LUZ, de sabor agostiniano entre outras fontes inspiradoras, ilumina melhor a quem se sabe iluminado.
12. “(…) o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência” (nº34, p.46).
13. “A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história, porque coloca todos os acontecimentos em relação com a origem e o destino de tudo no Pai que nos ama” (nº55, p.74).
14. “Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf. Gl 5, 6), a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum” (nº51, p.68).
15. ”(…) a fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo” (nº15, p.22).




























terça-feira, 16 de julho de 2013

Faleceu José Dias da Silva, membro da Comissão Justiça e Paz

 

D.R.
Coimbra, 16 jul 2013 (Ecclesia) - José Dias da Silva, membro da Comissão Justiça e Paz da Diocese de Coimbra, faleceu esta segunda-feira após doença prolongada.
A missa de corpo presente vai celebrar-se esta quarta-feira, às 09h30, na igreja de S. José, seguindo-se o funeral para o Cemitério da Conchada, na cidade de Coimbra.
Numa mensagem divulgada pela família comunicando o falecimento de José Dias da Silva, pede-se para não expressar o pesar através da oferta de flores, mas por um “gesto de generosidade” que “o Zé Dias apreciaria”.
Nesse sentido, é proposto um donativo para o projeto "Fundo Solidário", do Instituto Universitário Justiça e Paz, que visa apoiar estudantes do Ensino Superior com dificuldades económicas.
Colaborador da Agência ECCLESIA, José Dias da Silva era conhecedor e defensor das temáticas da Doutrina Social da Igreja, objeto de análise em muitos artigos que escrevia para a imprensa nacional e regional e escolha para intervenções e conferências.
José Dias da Silva, casado e com dois filhos, nasceu a 15 de março de 1942, no Souto de Brejo, Pampilhosa da Serra.
Frequentou durante oito anos os seminários da Diocese de Coimbra, tendo-se licenciado depois em Físico-Químicas pela Universidade de Coimbra.
Na atividade académica, como professor e investigador universitário, “procurou contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais solidária e mais humana”.
“Reformou-se ao fim de vinte anos de serviço para se poder dedicar melhor às responsabilidades familiares e a tarefas eclesiais e sociais”, considerou o padre António Jesus Ramos na apresentação do livro “Memórias de um tempo futuro”, em 2006.
José Dias da Silva foi membro da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Comissão Coordenadora Nacional das Semanas Sociais, da Comissão Permanente do Conselho Pastoral Diocesano de Coimbra e da Comissão do Conselho Pastoral da Paróquia de São José (Coimbra).
Responsável pelo módulo de Doutrina Social da Igreja na Escola de Leigos da Diocese de Coimbra, orientou minicursos sobre o tema em paróquias, movimentos e grupos de reflexão e colaborava no Instituto de Estudos Teológicos.
Entre outros títulos, publicou o livro “Viver o Evangelho Servindo a Pessoa e a Sociedade - Introdução à Doutrina Social da Igreja”.
José Dias da Silva mantinha colaborações regulares nas colunas «Fé e Compromisso», no «Correio de Coimbra»; «O Futuro Depende de Nós», no Notícias de Vila Real; «Sinais», na revista Além-Mar e «Pedra a Pedra», no Mensageiro de Santo António.
PR













quarta-feira, 3 de julho de 2013

Responsabilidade de uma Comunidade unida no serviço à Educação

 
“As aulas de EMRC não se mendigam nem se impõem automaticamente. Merecem-se.”
 
António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro
e presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé
Com a realização dos últimos exames, calendarizados para estes dias, vemos concluído o presente ano lectivo. Isso não significa que estejam terminados na escola todos os trabalhos deste ano. A escola vive nesta hora um momento de avaliação do ano lectivo que termina e um tempo de preparação e programação do novo ano que começa no próximo mês de Setembro. Avaliar com rigor e programar com clarividência são sempre trabalho necessário a exigir acrescido esforço de toda a comunidade educativa.
Este ano, que agora se conclui, fica marcado no âmbito da Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) pela promulgação da nova legislação que vem dar renovada consistência legal ao exercício do ensino desta disciplina curricular.
Este texto legislativo orgânico, estruturado e consistente é fruto de um prolongado trabalho realizado entre a Conferência Episcopal Portuguesa e o Ministério da Educação e Ciência, que mereceu parecer favorável da Comissão Paritária, aprovação em Conselho de Ministros e promulgação do senhor Presidente da República.
O Decreto – Lei n.º 70/2013, de 23 de Maio, reúne e configura toda a legislação anterior, que foi dando forma e abrindo caminho ao direito dos alunos e dos encarregados de educação de escolherem um projeto educativo assente nos valores da educação moral e religiosa católica.
Sendo a disciplina de EMRC, na escola pública estatal, uma disciplina de oferta obrigatória e de frequência facultativa, ela inscreve-se legalmente no quadro do respeito inviolável pelo direito dos alunos de escolherem uma resposta educativa que assegure a sua formação integral.
As estatísticas revelam que a frequência desta disciplina tem sido estável ao longo das últimas décadas. Mudou a cultura de escola e transformaram-se os contextos de vida da sociedade atual, mas não se alterou nem diminuiu o desejo das famílias de encontrarem na disciplina de EMRC um necessário contributo para a educação dos seus filhos.
Tem aumentado significativamente, nos últimos anos, o número de alunos do primeiro ciclo que se matriculam nas aulas de EMRC, em conformidade com a lei. Isto diz-nos que as famílias procuram dar aos seus filhos, desde o início do ensino básico, a possibilidade de frequentar esta disciplina, conscientes dos benefícios que daí lhes advêm.
Há muitos alunos que frequentam EMRC independentemente das suas convicções religiosas e do seu credo de fé. Compreendemos todos que EMRC não é catequese nem somente educação cívica. A EMRC oferece aos alunos e à comunidade escolar um olhar de interdisciplinaridade para a beleza, valor e sentido da vida.
Ser aluno de EMRC significa aprender caminhos firmados na dignidade humana, sentir o fascínio do transcendente e a lucidez diante do tempo presente, saborear a alegria de trabalhar em conjunto, preencher de alma o viver em comunidade, ler a história com a sabedoria da inteligência e abraçar as grandes causas da humanidade com a doçura do coração. Ser aluno de EMRC consiste em moldar a vida pelos valores do evangelho de Jesus e ajuda a descobrir o encanto da fé e a paixão pela missão da Igreja.
Os protagonistas da EMRC são sempre os alunos e as suas famílias. O seu meio natural é a comunidade escolar. O seu horizonte é a plenitude da vida dos alunos sem marcas temporais e sem fronteiras ideológicas. Os seus agentes mais diretos são os professores de EMRC e a comunidade educativa no seu todo.
Ninguém na comunidade se deve alhear desta grande causa nem dispensar deste serviço à educação, a começar pelos professores e restantes agentes educativos. O segredo do êxito conseguido em tantas escolas do nosso país pela disciplina de EMRC está precisamente aqui: ela é um ato vivo de toda a comunidade, que conhece as suas crianças, os seus jovens e as suas famílias. Só uma comunidade assim unida neste agir educativo e consciente da grandeza desta responsabilidade comum consegue dar à escola o melhor de si mesma.
E aqui a Igreja tem uma palavra a dizer, um testemunho a dar e uma experiência de muitos séculos a partilhar. O professor de EMRC não está só. A escola não pode ser uma desconhecida ou ignorada da comunidade. A missão de ensinar e o direito de aprender não devem estar ausentes nem distantes do viver colectivo da comunidade no seu todo.
As aulas de EMRC não se mendigam nem se impõem automaticamente. Merecem-se. A escola tem direito de as exigir da comunidade como verdadeiro e insubstituível compromisso em prol do bem comum e da causa da educação. O ensino nas nossas escolas tem de exprimir o que a comunidade pensa, sente e quer e deve espelhar a própria alma da comunidade no que de mais belo ela possui.
A presente legislação é, também neste contexto, uma oportunidade que a escola deve valorizar, que os alunos e encarregados de educação são chamados a conhecer, que os professores de EMRC têm o dever de implementar com competência e que toda a comunidade deve assumir com verdade.
O quadro legal em que nos movemos cumpre a Constituição da República e regulamenta, naquilo que lhe concerne, a Concordata de 2004, celebrada entre o Estado Português e a Santa Sé. A adaptação a este novo enquadramento legislativo vai exigir muito da escola e da comunidade.
Pertence-nos a todos concretizar caminhos e cumprir objectivos expressos nesta legislação, para que cada vez mais os alunos possam encontrar nas aulas de EMRC as respostas a que têm direito e procurar aí os valores onde se respaldem os horizontes do seu futuro.
Nesta época de matrículas cumpre-nos sensibilizar as famílias, a escola e a comunidade para o bem que a disciplina lhes oferece. Estamos, assim, a construir uma escola melhor e a lançar bases sólidas do futuro de Portugal.
Aveiro, 1 de Julho de 2013



















terça-feira, 2 de julho de 2013

Swap (trocar) de ministros


Estamos perplexos pela inculturação portuguesa deste inglesismo! Três meses foi o tempo necessário para conhecer, adotar, aplicar nas mais altas instâncias da nação: o Primeiro Ministro “swapou” o Ministro das Finanças!
É caso para dizer que o desgaste de tudo e dos contratos “swap” consumiu o governo, provocou a erosão.
Foi um preço demasiado elevado para todos nós! E, muito provavelmente, ainda não está tudo descoberto.
Progredindo em espanto tomámos conhecimento da dimensão desta tática do jogo do dinheiro – mais uma estratégia que se revelou perniciosa!
Posteriormente foram surgindo novas “swaps” (trocas) de acusações – afinal quem fala verdade sobre o assunto?!
E, em plena crise de “swap”, até o Ministério das Finanças vai com “a água do banho”! Triste cenário este!
O Económico online publicou um pequeno artigo elucidativo. Partilhamo-lo.
“Parece um conceito complicado, mas na verdade é muito mais simples do que pensa. Saiba o que é um contrato de 'swap'.
É talvez uma das expressões mais usada por estes dias e que envolve milhões. Muitos milhões de euros.
Mas afinal o que são estes instrumentos complicados chamados 'swap'?. Na verdade são simples.
Imagine que pediu um empréstimo ao banco para comprar uma casa. Ou seja, contraiu um crédito à habitação. Esse empréstimo, na maior parte das vezes, é acordado tendo por base uma taxa de juro variável. E que sobe ou desce consoante a variação da Euribor.
Agora imagine que acredita que os juros vão subir muito nos próximos anos. O melhor, seria fixar essa taxa, travar essa subida. É exatamente isso que um contracto de 'swap' permitiria que fosse usado num crédito à habitação.
Como a própria palavra indica, 'swap' é uma troca. Neste caso uma taxa de juro variável por uma fixa.
O pior é se ao contrário do que pensava as taxas de juro em vez de subirem, descerem. Então nesse caso fica a pagar o valor fixo.
Imagine 5%, quando no mercado o preço do dinheiro já só custa 2%. Foi exatamente isso que aconteceu no caso de algumas empresas públicas. Acordaram contratos numa altura em que as taxas de juro estavam a subir, pensando que iriam subir ainda mais e tentaram trancar essa valorização.
Mas a realidade nem sempre é o que nós pensamos que vai ser. E neste caso não foi. As taxas de juro desceram e agora as perdas potenciais podem chegar aos 3 mil milhões de euros.
No fundo é como no casino. Apostamos no vermelho mas às vezes sai o preto. Há sempre alguém que ganha.”
Com tudo isto, mais uma despesa social (também na credibilidade!) para liquidar…
(in Correio do Vouga, 2013.07.03)

















liberdade interior

«Eu falo da primeira liberdade
Do primeiro dia que era mar e luz
Dança, brisa, ramagens e segredos
E um primeiro amor morto tão cedo
Que em tudo que era vivo se encarnava».
[Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética, 2011, p. 281.]
Meditamos três textos notáveis. Plásticos e impressivos. Um do Antigo Testamento (Primeira Aliança); outro, uma carta de Paulo, e finalmente, o evangelho (por regra entra em diálogo quase sempre com o primeiro). O que está nas entrelinhas de textos tão diferentes? Qual o fio condutor que une a liturgia? Simplesmente, propõe-se: aprender Jesus. Como? Vamos reflectir.
Elias passa e chama o discípulo Eliseu. O jogo do manto. Vocação que é jogo de símbolos. O mesmo Chamamento em Jesus. Elias permite a licença para que Eliseu se despeça dos pais. Jesus nega a quem pediu a mesma coisa. Ver a questão do avesso. A questão não é despedir-se ou não. O que Jesus espera é uma profunda liberdade interior. Coisa presente nos três textos.
Paulo entendeu bem o «segredo/destino» que Jesus clamava. Livres eram os que viviam segundo Espírito (“verdadeira liberdade que Cristo nos libertou”…). Os discípulos, João e Tiago, querem o “fogo do céu!”, mas Jesus diz não à vingança sobre os samaritanos. Diante da falta de liberdade crescem (quase sempre) as ervas daninhas do Medo, do Autoritarismo e da Barbárie!?
Liberdade “primeira” que está na rua pública e dentro do quarto privado. Nas praças de todas as “Turquias” e de todos os “Brasis”. No lado avesso de todas as Greves (profissionais ou não instrumentalizadas!). Está em nós de forma cultivada e não animal. Os animais ficam aprisionadas ou não. Só o Ser Humano joga, “ao ataque ou defensivamente”, pela sua Liberdade, no acto de pensar e agir, na construção da Comunidade mais Humana (Justiça + Paz).
Aprofundemos (de cabeça e coração bem dentro…): “Nós não somos livres porque não amamos, não amamos porque não somos livres. Há um jogo difícil. O que vem primeiro: a liberdade ou o amor? Os dois são simultâneos. A liberdade prepara o amor, o amor prepara a liberdade. Nós temos que trabalhar, ao mesmo tempo, a dimensão da liberdade interior e a dimensão do amor. Os dois caminham juntos, de braços dados” (JB Libânio).










quinta-feira, 27 de junho de 2013

Igreja, sindicatos e direito à greve

 

A Doutrina Social católica reconhece a legitimidade da greve quando se apresenta como “recurso inevitável, senão mesmo necessário”, tendo em vista um “benefício proporcionado”, como se pode ler no Catecismo da Igreja.
Portugal vive hoje uma greve geral, convocada pelas duas centrais sindicais e apoiada, entre outros, pela Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos e a Juventude Operária Católica.
Segundo o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, “a greve, uma das conquistas mais penosas do associativismo sindical, pode ser definida como a recusa coletiva e concertada, por parte dos trabalhadores, de prestarem o seu trabalho, com o objetivo de obter, por meio da pressão assim exercida sobre os empregadores, sobre o Estado e sobre a opinião pública, melhores condições de trabalho e da sua situação social”.
A greve deve ser sempre um método pacífico de reivindicação e de luta pelos próprios direitos e torna-se “moralmente inaceitável quando acompanhada de violências, ou com objetivos não diretamente ligados às condições de trabalho ou contrários ao bem comum” indica ainda o referido Compêndio.
A carta apostólica ‘Octogesima Adveniens’, escrita em 1971 pelo Papa Paulo VI, ressalva que, no caso dos serviços públicos “necessários para a vida quotidiana de toda uma comunidade, dever-se-á saber determinar os limites, para além dos quais o prejuízo causado se torna inadmissível”.
A ‘Gaudium et Spes’, constituição pastoral aprovada durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), declara no n.º 68 que os parceiros sociais envolvidos numa paralisação devem “retomar o mais depressa possível o caminho da negociação e do diálogo da conciliação”.
João Paulo II, na sua encíclica sobre o trabalho, indicava que os sindicatos “cresceram a partir da luta dos trabalhadores, do mundo do trabalho e, sobretudo, dos trabalhadores da indústria, esforçando-se pela defesa dos seus justos direitos, em confronto com os empresários e os proprietários dos meios de produção” (‘Laborem Exercens’, 20).
Para a Igreja Católica, as organizações sindicais, “perseguindo o seu fim específico ao serviço do bem comum, são um fator construtivo de ordem social e de solidariedade e, portanto, um elemento indispensável da vida social”.
“O reconhecimento dos direitos do trabalho constitui desde sempre um problema de difícil solução, porque se atua no interior de processos históricos e institucionais complexos, e ainda hoje pode considerar-se incompleto. Isto torna mais que nunca atual e necessário o exercício de uma autêntica solidariedade entre os trabalhadores”, assinala o Compêndio da Doutrina Social.
À luz desta conceção, a doutrina social “não pensa que os sindicatos sejam somente o reflexo de uma estrutura ‘de classe’ da sociedade, como não pensa que sejam o expoente de uma luta de classe, que inevitavelmente governe a vida social” (‘Laborem Exercens’, 20).
O Compêndio da Doutrina Social, no seu número 308, refere, por outro lado, que “os sindicatos são chamados a atuar de novas formas, ampliando o raio da própria ação de solidariedade”.
OC










segunda-feira, 17 de junho de 2013

Contribuição para a desconstrução de uma falácia…

 

Há por aí, como sabemos, determinadas ‘verdades’ que, de tantas vezes serem repetidas, até parece que são verdadeiras.
Vou procurar desconstruir uma delas relativa ao horário dos docentes.
Diz-se que os professores nem 35h semanais trabalham, uma vez que a sua Componente Letiva (CL) é de 22h, ou mesmo menor, se se falar dos que têm maior antiguidade.
Vejamos o que esconde a afirmação.
Hoje, um docente até aos 50 anos no 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e no Secundário tem 22h de CL e 13h de Componente Não Letiva (CNL), perfazendo as 35h semanais.
A legislação define que, das 35h, 3 Tempos Letivos (TL) da CNL são para o trabalho na escola – funções referidas no art.º 82 do Estatuto da Carreira Docente (ECD) – entre as quais se encontram as reuniões.
Estas são várias: Departamento, Grupo Disciplinar (GD), Conselhos de Turma (CT) – as atribuídas ao docente, incluindo intercalares (a meio dos períodos) e de caráter disciplinar – bem como todas as outras necessárias.
No GD serão preparatórias e subsequentes de cada Conselho Pedagógico (CP) e as que discutem questões das disciplinas lecionadas, incluindo as de planificação.
Cada reunião tem duração definida de duas horas, não se contabilizando o tempo quer de preparação (documentos têm de ser lidos, elaborados…), quer de realização do decidido (reuniões servem para algo…).
E haverá só uma destas reuniões por semana?
Na hora sobrante, das 3 referidas, atribui-se uma das tarefas descrita no citado art.º 82.
As restantes 10h são, em princípio, trabalho individual.
O docente terá até 8 turmas (este n.º tem vindo a aumentar), uma vez que variam consoante as horas semanais das disciplinas a lecionar.
Falando do Secundário, no qual trabalho, estabeleço a média de 4 turmas/docente, cada uma com 30 alunos (este n.º também tem vindo a aumentar, mais do dobro de qualquer ação de formação profissional), sabendo que as médias são terríveis!
Para corrigir testes num período, no mínimo 2, tem-se: 4Turmasx30Alunos=120Testes; 120Testesx2=240Testes.
Para a correção, dando-se 30min para cada, tem-se: 240Testesx30min=120h.
Tendo em conta os 3 períodos letivos, tem-se: 120hx3Períodos=360h.
Neste ano letivo foram 13+10+10=33Semanas de aulas, pelo que considerando as 10h semanais atribuídas na CNL tem-se: 33Semanasx10h=330h.
Isto é, faltarão 30h só para corrigir testes…
Acresce que até têm de ser elaborados, reproduzidos, recolhidos…
Registo que não contabilizei até aqui a preparação de aulas!
E há que as preparar…
Os trabalhos, temáticos e os de casa, têm de ser corrigidos, as aulas laboratoriais têm de ser concebidas e preparadas, as visitas de estudo têm de ser organizadas…
Com a falta de auxiliares existente nas escolas já se exige aos professores que lavem o material e deixem as salas prontas para serem utilizadas pelo próximo colega…
Então a questão não estará nestes professores, mas sim nos ‘maiores de 50’, porque têm redução da CL, estando aqui, de certeza, o problema…
Vamos então ver o que se passa com aqueles!
Sublinho que os cargos existentes na escola só podem ser atribuídos a estes docentes uma vez que os outros não têm horas para tal, pois no ‘tempo da outra senhora’ (leia-se Dr.ª Lurdes Rodrigues) foi estipulado que deveriam ser desempenhados na CNL.
Seria até útil que quem agora fala em acabar com a redução da CL para os professores mais antigos percebesse que iria ter de nela atribuir as horas para o exercício dos cargos, o que não representaria qualquer ganho de per se…
Faltam horas na CNL para os cargos, não podendo ser todos nela atribuídos aos que ficaram, pois são cada vez menos devido às reformas, verificando-se até utilização de horas de apoio aos alunos para esta finalidade.
E há que salientar que para a maioria dos cargos se estipulam duas horas da CNL para o seu desenvolvimento!
Dou o exemplo do de Coordenador da Saúde, que envolve o da Educação Sexual, área que tenho vindo a trabalhar no doutoramento que desenvolvo.
Com os Mega Agrupamentos, aqueles professores coordenam agora todos os níveis de ensino, do Pré-Escolar ao Secundário.
Basta uma reunião mensal com cada um dos níveis para que se esgote tal tempo.
E não se preparam as reuniões? Não se trabalha o que delas emana?
Se as horas são para coordenação e assim se esgotam, em que tempo se trabalha?
Não se preparam as atividades? Não se despende tempo a contactar intervenientes para as realizações? Não se organizam as visitas de estudo?
Por último, há que desmistificar a também peregrina ideia que os professores têm muitas férias, entendendo-se que é isso que acontece em cada interrupção letiva.
Para além das reuniões de avaliação (4x3h=12h, no caso apresentado), do trabalho administrativo, p. ex. atas, uma vez que, no mínimo, cada um secretaria uma reunião, contabilize-se o tempo de preparação – atribuição de classificações a 120 alunos nas várias componentes (testes e fichas, trabalho de aula, envolvendo o prático, e fora dela, atitudes e valores) – 30h, considerando, no mínimo, 15min/aluno. E vão 42 neste caso!
Cada paragem tem 9 dias (63h) e para além do descrito há que assegurar o secretariado das reuniões, preparar o período seguinte, delinear o planeamento para discussão com os outros colegas do GD, preparar aulas e atividades e fazer a avaliação do trabalho desenvolvido.
No que respeita ao início do ano, regresso a 3 de setembro para quem gozou férias em agosto, envolveu igualmente 9 dias, no máximo.
Reuniões de departamento, de GD (planificação, definição do Plano Anual de Atividades (PAA), distribuição de serviço), dos CT (primeiro conhecimento dos alunos, da turma e discussão de estratégias), Reunião Geral de Professores (RGP)…
Faz-se ainda alguma formação interna e preparam-se aulas e atividades do início do período (recolha e organização de materiais, bibliografia…).
O final do ano envolve as últimas avaliações, com o já descrito para as anteriores, elaboram-se termos, fazem-se exames e vigilâncias e o secretariado das provas internas e externas, que se prolonga agosto dentro.
Constituem-se turmas, desenvolvem-se ocupações de tempos livres para os jovens, elaboram-se relatórios das atividades desenvolvidas e toda a burocracia relacionada com a Avaliação do Desempenho Docente (ADD), frequentam-se ações de formação, faz-se o inventário de recursos…
Realço, no final, que em muitos países da UE os docentes têm 8 semanas de férias, terminando o trabalho com o términus do ano letivo dos alunos, ou na semana seguinte.
Espero ter contribuído para a desconstrução da falácia.
Claro que tal não evita que se continue a dizer o que se quer, pois os objetivos de quem o diz, às vezes, são insondáveis…
Em educação, até se diz que há professores a mais…
E havia tanto para dizer a este nível, como se explica na ‘Educação, levanta-te e luta’.
Não estaremos a falar do melhor do mundo, que são as crianças e os jovens…