sexta-feira, 31 de maio de 2013

Barómetro das Crises

CESO Observatório sobre Crises e Alternativas acaba de publicar o seu 5.º Barómetro das Crises, que nesta edição trata dos cortes anunciados nas pensões.
Cerca de 30% dos 4 mil e 800 milhões de euros de cortes permanentes da despesa anunciados pelo Governo incidem sobre pensões de reforma. Estes cortes nas pensões são tanto mais surpreendentes quanto acrescem a reformas adotadas em Portugal, em 2001 e 2007, que estão já a ocasionar uma redução do valor médio das pensões e, deste modo, a fazer com que a despesa em pensões não acompanhe o aumento do número de idosos na população.
Não se prevendo o crescimento da despesa com pensões que seria expectável à luz da evolução demográfica, como se justifica a prioridade conferida à redução da despesa pública com os regimes de pensões?


quinta-feira, 16 de maio de 2013

escrevinhar a memória da fé

 
Pedro José Lopes Correia  |  Justiça e Paz – Aveiro
“Dai-me o que me ordenais
e ordenai-me o que quiserdes” – Santo Agostinho.
      Três noites depois, volto ao nosso dia da «Peregrinação Diocesana (12-05-2013)», como uma Graça inexprimível. Escrevi «nosso» porque é diferente dizê-lo diante da peregrinação televisiva ao Santuário da Cova da Iria, onde foram derretidas mais de 26 toneladas de velas, e “visitaram” Fátima, mais de meio milhão de pessoas (300 mil no domingo e 270 mil na véspera. Cfr. in Público, 14-05-2013, p.11). É diferente dizer essa Fátima é também nossa. E a peregrinação à História Viva da Nossa Padroeira Santa Joana, a Princesa do Desprendimento (“para seguir é preciso deixar”), foi a nossa; fomos nós os «fazedores», é por isso nossa! Ambas comportam uma verdade confessional e/ou testemunhal. Posso ser testemunha e não confessar. Posso confessar e não ser testemunha. Posso excluir ambas ou admitir ambas. Deixo os “nossos números oficiais” para quem seja íntegro. Sabendo que Deus multiplica e divide como ninguém o faz. A matemática é a «sua» propedêutica para a Fé inquisitiva, nos dias que não passam. A Fé não faz uma leitura mágica dos números, mas uma leitura mística. Somos Corpo Místico.
      Importa-nos reflectir nesta dimensão da memória da Fé. Relendo Santo Agostinho, “nós defendemos” a hipótese de que o Amor depende da faculdade da memória, e não da expectativa da Morte. Parece simples e é. Parece simples e não o é. Qual a razão do nosso Amor a Deus e aos Irmãos? Amar até morrer. Amar até viver em Deus. O que é que amo quando amo a Deus? Esta terrivelmente boa pergunta, sangrou-me no decorrer de toda a Peregrinação, olhando todos: os animadores, os catequistas, os escuteiros e dirigentes, os participantes anónimos e conhecidos, os voluntários incansáveis e os profissionais variados, os casais e seus filhos, os idosos persistentes e os jovens audazes, a imensidão humana da geografia dos afectos, Etc. Deu-me a mim, parvo e idiota (estritamente etimológicos os sentidos) vestígios fortes sobre a Verdade de Deus, sobre a Memória da Fé.
    A programação dizem as línguas (des)construtivas esteve quase sem mácula. Sabemos que temos sempre imperfeições, erros e melhoramentos, a corrigir. Mas o conteúdo e a forma, com todos os recursos disponíveis e inventados: peregrinar e pernoitar no chão; jogos criativos e músicas adesivas; adoração eucarística (silenciada e silenciosa); “mexer” com a Cidade e a Cidade “mexer-se” através de nós; e, sobretudo: a tentativa de reflexão na base do testemunho vocacional e bíblico; a Procissão solene, de matriz cultural e a Eucaristia solene, sinal da comunhão fraterna (depois do êxito evangélico do «Dia da Partilha»). Foram bem propostos; penso que bem acolhidos, e por essa ordem de razões, bem vivenciados. É aí e agora, que a Memória da Fé tem de encontrar o terreno evangélico, para continuar a frutificar 0,25%, 5%, 15%, 99,9%, etc. em Graça e Verdade!
      O salmista indaga: «Qual é a medida de meus anos? Meus dias são como nada diante de Ti» (Salmo 38). Dias como o da «Peregrinação Diocesana» - e por tabela graciosa, Todos os Dias “11” da Missão Jubilar -, não têm um ser verdadeiro; eles se vão quase antes de chegar; e quando vêm, nós não podemos continuar iguais. Em certa medida, são comparáveis aos dias do nascimento dos filhos…, das datas de opções/compromissos para o resto da nossa vida! Marcam a nossa caminhada na Fé, se forem trabalhados pela memória interior do Coração. Da disponibilidade absoluta de Deus. Nos dias de Deus somos sempre amantes e noivos; não haverá mais morte; não haverá cansaço e peso; não haverá mais fracasso e atrasos desprogramados; haverá dias que não passam; haverá dias que perduram!
      Haverá um só Dia: Vive esta Hora! “Um dia que não é precedido de um ontem, nem expulso por um amanhã. Essa medida dos meus dias, o que é, digo eu, revela-te a mim” (Erich Przywara). Que bom recordarmos que vivemos juntos dias assim!





sexta-feira, 10 de maio de 2013

escrevinhar caminhos

 
Pedro José Lopes Correia  |  Justiça e Paz -  Aveiro
 
“O sentido pode ser dançado” – George Steiner.
a. Os passos movem-se. São os passos não somos só nós. É uma acção conjunta. Muito menos o movimento em si. Perguntemos ao caminhar. Qual a direcção a tomar? Não há problemas, há caminhos. Como é que os céus, que se movem de oriente para ocidente (ou vice versa: não concedas tu ao sol, a versão do teu deus sombra!?) andam e desaparecem? Caminhar revela o começo de Tudo. A origem do universo na forma secular da evolução humana.
b. Peregrinar propõe inflexão pessoal. Qual a razão das nossas fadigas se caminhar redobra o nosso cansaço? Um cansaço que dá Sentido ao desencanto possível do existir. A nossa árdua peregrinação do Espírito é movida e coroada pelo desgaste do/no Corpo. Não é castigo. Engana-se quem foge, repudia ou exorciza. Peregrinar é purificar. - Quem está limpo que atire a primeira pedra?
c. Se o caminhar está associado à evolução cerebral o mais ainda há que dizer e aprofundar nos caminhos do nosso viver. Qual garimpo. Seria habilitação moderna para caminharmos o menos possível uma involução? Certamente. Resultado: crescemos em incompetência espiritual, quando contraditoriamente, somos demovidos pela competência tecnológica. Caminhar é consolidação espiritual. Lançar sobre o problema só uma luz oblíqua não é problema. É disposição para iniciar(-se).
d. Exemplos muito desarrumados na imaginação do Ser: Jerusalém. Atenas. Seca e Meca. Fátima. Taizé. Lourdes. Aparecida. Lençóis Maranhenses. Patagónia. Ilhas dos Açores. Parque do Gerês, ou Sintra, ou Buçaco, ou Curia, ou Botânico. Muralhas e seus Castelos. Catedrais e seus Santuários. Ruínas e seus Arranha-Céus. Minas e suas Barragens. Museus e suas Exposições. Pôr e Nascer do Sol (também da Lua). Lagos, Rios, Mares e Oceanos. Aeroportos e Shoppings, talvez porque não. Agora é o Túmulo de St. Joana Princesa. Aveiro sal e luz. Tudo é Espaço, Tempo e Modo. Mas uma só é a Realidade do Peregrinar: sair-de-si-para-andar-à-procura-do-Outro: ex-peri-mentar(-se).
e. Depois, vamos, a Caminho. Sou pela disposição. Mas peregrinar exige também interposição. A distância pode ser considerável. Falta-nos, porventura, o Tempo necessário. Sobra-nos a Vontade. O ar está abafado. Nas carteiras não há dinheiro. Vale a hospitalidade sagrada. Urgem lugares à sombra repousante. Sossego agora não. Onde está o sinal da tua luta pacífica? Rezar e olhar. O teu caminho com propriedade. «O Dia ainda não nasceu e/ou saída para a Noite». Consciência obsolescente, e muitas vezes «tecnófoba». Consciência que se quer sempre Lúcida. Caminhos divergentes e convergentes, são os que fazemos nossos.
Caracteres (esp.incl. com notas): 2561.









terça-feira, 7 de maio de 2013

SOMOS A MORADA DE DEUS


Georgino Rocha  |  Justiça e Paz – Aveiro

Jesus está na hora das grandes confidências, pois é o tempo da despedida, de dizer aos discípulos o que lhe vai no coração, e quer deixar como distintivo da sua identidade. Em diálogo franco, faz declarações que suscitam perguntas. Judas, não o Iscariotes, não entende como é que Jesus se vai manifestar nem porque escolhe a quem o irá fazer. E formula a correspondente pergunta a que Jesus dá resposta, abrindo horizontes surpreendentes e interpelantes. Os contemplados são aqueles que acolhem o seu amor e guardam a sua palavra; a estes, Jesus dá a garantia de serem morada de Deus e de receberem o Espírito Santo. Assim, terão companhia em todas as circunstâncias da vida e nada os poderá perturbar. Assim, a saudade da despedida é compensada pela nova forma de presença. E Jesus destaca a alegria como testemunho da fé dos que compreendem o alcance destes factos.
Somos a morada de Deus que vem viver na nossa consciência, no mundo interior de todos os que são fiéis à palavra de Jesus, Seu Filho. Esta opção de Deus evidencia a direcção correcta da realização humana. É a partir de dentro, da interioridade, que se faz a humanização, se alimenta a relação, se aprende a amar, a servir, a crescer na grandeza de ser pessoa. É a partir da consciência iluminada e esclarecida por Deus, mediante os ensinamentos de Jesus e a sabedoria das culturas humanizadas, que têm consistência as opções e os critérios condicionantes das nossas atitudes pessoais e colectivas. É a partir das atitudes que a sociedade manifesta os valores predominantes e a qualidade do sentido da convivência entre os seus membros.
A afirmação é clara e o convite interpelante. Procura dentro de ti e encontrarás o teu melhor tesouro, aquele que te ajuda a ser mais humano, a saber conviver com maior satisfação, a sentir a realização progressiva da felicidade a que aspiras.
Esta orientação fundamental é, frequentemente, contrariada por muitos factores. E surge a preferência pela exterioridade, pela aparência de rostos embelezados, pela dispersão de solicitações encantadas. Assim, a pessoa corre o risco de viver distraída de si mesma, de banalizar a nobreza dos seus sentimentos e de inverter a escala dos valores que pautam a sua vida. Segue o cortejo das satisfações de momento, do ritmo dos humores, da verdade precária e subjectiva, da força imperante da paixão incontrolada. E vai-se transformando num ser agitado pelo “vento”, dependente do impulso da sedução, esquecida do seu ser mais profunda que, de vez em quando, a consciência lhe segreda e o coração vazio reclama.
Conhecedor da fragilidade humana, Jesus cumpre a promessa de enviar o Espírito Santo para recordar e ensinar. Recordar é tornar presente e fazer real a beleza da dignidade humana como espelho do rosto de Deus, é trazer ao coração e apreciar a sabedoria da consciência que em tudo procura agir rectamente. Ensinar é mostrar à inteligência o que está contido nos sinais realizados por Jesus e agora actualizados na história. São sinais de atenção à pessoa e ao seu contexto, à verdade que liberta, à solidariedade que irmana, à oração que eleva, a Deus que sempre nos acompanha.
Quem está desperto para esta presença dinâmica do Espírito vive na alegria e na confiança, aprecia e valoriza a rectidão da consciência e a sabedoria do coração, é cada vez mais humano no seu ser e no seu agir.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Vaticano: Papa rejeita fé num «deus-spray» e frisa que católicos devem acreditar em «pessoas»

Cidade do Vaticano, 18 abr 2013 (Ecclesia) – O Papa rejeitou hoje o catolicismo baseado num “deus ‘no ar’, um deus-spray que está em todos os lugares, mas não se sabe o que seja” e sublinhou que os católicos devem crer em pessoas concretas.

“Nós acreditamos no Deus que é Pai, que é Filho, que é Espírito Santo, acreditamos em Pessoas. E quando falamos com Deus, falamos com pessoas: ou falo com o Pai, ou falo com o Filho ou falo com o Espírito Santo. E esta é a fé”, sublinhou Francisco na missa a que presidiu no Vaticano, revela o portal de notícias da Santa Sé.

Na eucaristia concelebrada na Casa de Santa Marta por vários sacerdotes, entre os quais o padre luso-canadiano José Avelino Bettencourt, chefe de protocolo da Secretaria de Estado do Vaticano, o Papa realçou que “a fé é um dom” divino.
“Todos somos pecadores, temos sempre algo de errado, mas o Senhor perdoa-nos. Devemos prosseguir sempre, sem nos desencorajar”, afirmou perante dezenas de membros do corpo de polícia italiano responsável pela segurança do Papa e do Vaticano.
Francisco referiu-se também à “alegria” e à “paz” proporcionadas pelo seguimento de Cristo: “Peçamos ao Senhor que nos faça crescer nesta fé, nesta fé que nos fortalece, que nos torna alegres, essa fé que começa sempre com o encontro com Jesus e prossegue sempre na vida com os pequenos encontros quotidianos com Jesus”.
RJM

in Ecclesia 18.04.2013
 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

JESUS ORIENTA OS DISCÍPULOS EM MISSÃO

 
Georgino Rocha  |  Justiça e Paz – Aveiro

O mar de Tiberíades é cenário aberto e expressivo da acção de Jesus ressuscitado. Acção que nos chega em forma de narrativa com fundo histórico e/ou carácter simbólico. A que faz o relato da aparição/manifestação de Jesus aos discípulos pescadores pertence a este tipo de narrativas e comporta uma mensagem qualificada.
Antes de serem discípulos, alguns dos que seguiam Jesus eram pescadores de profissão, conhecendo bem os tempos e as marés favoráveis,  o rumo previsível do peixe em movimento e, consequentemente, as horas propícias para a sua captura. Também lhes eram familiares a barca do trabalho, as redes da esperança, o saco repleto de sonhos alcançados ou de desejos adiados. Esta sábia experiência perdura mesmo durante o acompanhamento de Jesus em que tantas surpresas aliciantes acontecem.
Porém o desfecho de tudo isso – a condenação à morte do Mestre – desilude-os completamente, deixa-os desorientados e leva- os a regressar a suas casas, a retomar o trabalho do “ganha pão”, a “fazer o luto” pela perda do amigo em quem confiaram, a recompor-se interiormente, a reconstituir os laços solidários com a vizinhança e os companheiros da faina, a encarar o futuro ensombrado que, lentamente, se vai entreabrindo.
Após uma noite de labuta estéril, deparam-se com uma surpresa desconcertante. Era ao romper da manhã. Rapidamente chegaria a claridade do pleno dia. Jesus tinha em marcha um plano de regeneração das esperanças desfeitas e dos ânimos abatidos. Ele mesmo liderava o processo. “Rapazes, tendes alguma coisa de comer?” “Não” – respondem, dando voz à situação de privação em que se encontram e indiciando o vazio interior em que se sentem. “Lançai as redes para o lado direito do barco e encontrareis”.
Eles, homens calejados naquelas lides, confiam docilmente na palavra de um desconhecido. Nem sequer contrapõem a sua experiência amadurecida ao longo dos anos. E avançam pelo mar dentro. Entretanto, Jesus prepara-lhes uma recepção calorosa: brasas acesas na praia com peixe em cima e pão. E diz-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora”, acrescentando: “Vinde comer”. De facto, a pesca, contra todas as expectativas, tinha sido muito abundante. 
A cena desenrola-se com outros episódios significativos: João que intui ser Jesus ressuscitado a figura da margem; Pedro que se lança à água; barcas que são puxadas pelos pescadores; diálogo de amor e missão que Jesus tem com Pedro e o convite que lhe faz: “Segue-me”.
Em cenário de pesca marítima, o narrador “desenha” com traços muito vivos a relação de Jesus com os discípulos, com a comunidade eclesial, com Pedro e seus sucessores. Define a missão que lhes confia como um serviço de amor. Apresenta o mar da vida como horizonte e fronteira de acção. Vela com solicitude por todos e marca encontro/convívio na refeição/eucaristia. De facto Jesus toma sempre a iniciativa e orienta a sua Igreja no desempenho da sua missão no mundo/na sociedade.                         

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bispos criticam "banalização" do aborto e "facilitação extrema" do divórcio

Presidente da Conferência Episcopal, D. José Policarpo, aludiu ainda ao "panorama preocupante" por causa da crise de natalidade e disse ser natural pedir aos governantes que "não agravem a situação" com sobrecargas fiscais.
11-04-2013 17:14 por Ecclesia
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=29&did=103613
A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) criticou esta quinta-feira a "banalização" do aborto e a "facilitação extrema" do divórcio, alertando para as consequências da actual legislação sobre o futuro das famílias. "A legalização do aborto e sua banalização desvalorizam a vida e contrariam radicalmente a promoção do bem essencial da mesma", assinala o comunicado final da assembleia plenária, que decorreu em Fátima desde segunda-feira.

D. José Policarpo, presidente da CEP, disse aos jornalistas que as mulheres vivem uma situação "dramática" quando decidem abortar e criticou a ausência do aconselhamento que está previsto na lei. "Isso não tem acontecido", lamentou. O Cardeal Patriarca apelou a um "trabalho de ternura, mas também de responsabilidade" junto das populações mais jovens.

Os bispos aprovaram uma nota pastoral intitulada "A força da família em tempos de crise" e sustentam que "a facilitação extrema do divórcio e as formas de convivência marital precária dificultam a decisão de ter filhos". Em comunicado, a Conferência Episcopal sublinha que "a Igreja, que defende a indissolubilidade do casamento, deve ser acolhedora e solícita na ajuda às pessoas que experimentaram o fracasso do seu casamento".