segunda-feira, 25 de março de 2013

TÃO HUMANO, SÓ DEUS


Georgino Rocha –Justiça e Paz | Aveiro
A paixão de Jesus condensa e realiza, de forma sublime, o seu amor pelo bem dos outros. Mostra com clareza o centro da sua vida e missão. Une, de modo feliz, a dedicação às pessoas com o desejo intenso de Deus Pai salvar a todos. Leva ao extremo a capacidade de doação que perdoa aos verdugos, suporta o abandono dos amigos, vibra e chora com a dor da multidão, aceita a ajuda dos que o acompanham na caminhada pública, se solidariza com a sorte dos excluídos e condenados e condói com toda a humanidade.
Toda a vida de Jesus está centrada nos demais que, em nome de Deus, quer libertar da indiferença e insensibilidade, do preconceito e do medo, da satisfação instalada e da relação egoísta. Centrada neles para lhes abrir horizontes como os seus e suscitar uma entrega tão generosa como a sua. A paixão de Jesus consiste em viver para os outros, correr os riscos desta opção e pagar a respectiva factura de incompreensão e morte. Não é simples compaixão ou ingénua comiseração.
O amor de misericórdia fá-lo partilhar a ceia memorial com os amigos, a ser compreensivo com os discípulos no Jardim das Oliveiras, a olhar compassivo a Pedro negador, a acolher com ternura o choro das mulheres de Jerusalém, a confrontar Herodes e Pilatos com a verdade, a aceitar a desejada colaboração de Simão de Cirene, a acolher as imprecações dos soldados e as lamentações dos condenados, a contemplar o grupo de fiéis seguidores junto à cruz, a entregar o cuidado da Mãe a João e deste àquela, a morrer confiante nos braços do Pai.
O amor de Jesus faz-se oração de perdão pelos seus algozes e por aqueles que o condenaram, faz-se oferta de salvação ao ladrão arrependido: “Hoje, estarás comigo no Paraíso”, faz-se morte que suscita vida nova. E o centurião romano ao ver o que ocorria reconhece Jesus como um homem justo e dá glória a Deus. De facto, “tão humano, só Deus” (Boff).                                     

terça-feira, 5 de março de 2013

Os números e o descontentamento

 
M. Oliveira de Sousa  |  Justiça e Paz-Aveiro
O país saiu à rua!
Mas terá sido todo o país? Terão estado dez milhões de pessoas a marchar contra a troika? “Que se lixe isso” – parafraseando um eventual cartaz.
O essencial está nas ideias para o governo, segundo alguns, ou desgoverno, segundo a maioria, do país. É óbvio que a grande maioria das pessoas quer apenas ter condições para honrar os seus compromissos!
Salvo raras exceções, todos os anos, em janeiro, esperavam-se (sempre) novos aumentos: nos salários, nos combustíveis, nos transportes,… em tudo mas sobretudo nos salários, no poder de compra. Subiu-se tanto, sobretudo em qualidade de vida e na dívida da mesma, nos últimos trinta anos, que obrigar as pessoas a perderem tudo o que acreditaram, lutaram e, justamente, atingiram não pode ser feito num ano ou dois e, de maneira particular, à custa de juros sobre dívidas que, apesar de indiretamente partilhadas, teria sido mais prudente ter acautelado evitando loucuras: submarinos, autoestradas, “intoxicação subsidiária” do tecido produtivo…
Como está até parece claro que só duas dicotomias na orientação dos atuais governantes europeus: trabalhadores mais pobres – maiores margens de lucro; austeridade (para as massas) – oligocracia (no poder).
Mas isto das dívidas dos países não é contabilidade de merceeiro ou agiota, são acordos de solidariedade soberana e interdependências.
Todos sabemos, com os devidos ajustes aos contextos atuais, mas Sérgio Aníbal recorda-o, num artigo no “Público”, há 60 anos, 70 países decidiram perdoar quase dois terços da dívida externa alemã. O país duplicou o seu PIB na década seguinte.
Com a troika em Portugal e com o Governo, os partidos da oposição e os parceiros sociais a pedirem uma melhoria das condições dos empréstimos que foram concedidos ao país, uma efeméride registada na passada semana dificilmente poderia passar em claro. Na quarta-feira, concluíram-se 60 anos desde que foi assinado o acordo de perdão de dívida entre a República Federal da Alemanha e os seus credores, onde se destacavam os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, mas onde também surgia a Grécia.
A 27 de Fevereiro de 1953, a economia alemã, que tinha atingido o fundo após a II Guerra Mundial, deu um passo decisivo para uma recuperação classificada por muitos como milagrosa. Desembaraçou-se de quase dois terços da sua dívida externa e iniciou uma década em que conseguiu duplicar o seu PIB.
Haja quem explique quando e como, num país como o nosso, com um PIB na ordem dos 160 mil milhões de euros, podemos desembaraçar-nos deste peso da dívida e recuperar a soberania? – basta de engodos e demagogias, razão do nosso descontentamento.








quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

CONFIA E TRABALHA, APESAR DO QUE VÊS


Georgino Rocha  |  CDJP – Aveiro
Esta é a atitude do cuidador da vinha onde se encontra uma figueira que não dá frutos há três anos. Jesus recorre a este facto/parábola para visualizar a mensagem que pretende transmitir aos discípulos e, por eles, a toda a humanidade. Que faz lá a figueira? Nada de útil, apenas ocupa e suga o terreno, dá sombra que impede o sol de aquecer a zona envolvente, larga folhas que cobrem o campo e abafam a germinação das sementes. “Corta-a” – ordena o dono. “ Senhor, deixa-a ficar mais um ano, eu vou cuidar dela, cavar em seu redor, deitar adubo, regar à sua volta e as suas raízes – responde o encarregado. E, confiante, acrescenta: “Talvez venha a dar frutos”.
A narrativa deixa a parábola em aberto. O dono consentiu? A figueira produziu frutos? O esforço do vinhateiro foi compensado? O ano pedido foi alongado? Estas interrogações não estão no centro da mensagem de Jesus e, agora, não interessam ao ensinamento que pretendia dar aos discípulos. A abertura surge da atitude surpreendente do encarregado da vinha: em vez de obedecer, intercede pela figueira; em vez de partilhar a decepção do dono, ousa confiar em alguma possibilidade de mudança; em vez de considerar esgotado o tempo da tolerância, recorre à paciência esperançada.
Esta nobre atitude é a que Jesus propõe aos discípulos de todos os tempos. Como ele, nunca os prazos estão esgotados durante a vida. Como ele, a confiança no futuro justifica o empenho no presente. Como ele, a energia da paciência acompanha todas as urgências. Como ele, acredita na força do amor que transforma e fecunda o que parece estéril.
A imagem da figueira é um símbolo habitual no Antigo Testamento para indicar Israel e o seu comportamento. O proprietário anónimo – o ouvinte/leitor bíblico não tinha dificuldade em identifica-lo – é Deus que oferece muitas oportunidades ao povo para dar frutos dignos da sua condição de povo escolhido. O vinhateiro/cuidador do campo onde está a figueira é Jesus que, paciente e laboriosamente, confia e trabalha, apesar do que vê e está plasmado na improdutividade, na esterilidade, na letargia da natureza, na alergia e falta de correspondência dos conterrâneos.
Agora é tempo de dar frutos. Há que vencer resistências, “cavar” as consciências e ir ao seu recanto mais profundo. Há que abandonar securas superficiais e “regar” a vida com o suor do amor confiante. Há que “cortar” as ervas daninhas, os vícios desviantes, e “alinhar” afectos e comportamentos. Há que descentrar o ego do seu olhar míope e focalizá-lo no círculo aberto ao bem de todos os outros, ao bem comum. Há que fazer como o vinhateiro, apesar de tudo o que se vê e parece aconselhar outras atitudes. É possível dar frutos novos e saborosos.




Cristianismo em choque operativo:

“deverás ser feliz” (parte II)
– ensaio brevíssimo (continuação) -
1. Consciência vivida por inteiro. Na hora da despedida. Na hora do ocultamento. Na hora da (in)visibilidade porque hora, também, de transparência testemunhal. Novamente reafirmada a Consciência como a grande vitoriosa. Muitas leituras podem ser feitas mas sei e acredito que esta perdurará sem medo eclesial (já não digo eclesiástico). Consciência porque fidelidade à «Voz de Deus»[1], enquanto conversão interior, não intimista ou sectária. Nas palavras do próprio Bento XVI: “essa conversão implica voltar a colocar Deus em primeiro lugar. Tudo fica diferente depois. Implica ainda que busquemos de novo as palavras de Deus para as deixar brilhar como realidade na nossa própria vida. Temos, por assim dizer, de voltar a ousar a experiência com Deus, a fim de O deixarmos actuar na nossa sociedade[2].
2. Oportunidade de sentir a renovação. A renovação verdadeira por uma decisão de Liberdade. Descobrir onde o Vento Sopra: ” (…) a partir do dia 28 de Fevereiro de 2013, às 20h (19h em Lisboa), a sede de Roma, a sede de S. Pedro vai ficar vaga (…)”. Na missa junto com o Povo de Deus, vou deixar de rezar a invocação: - Pelo nosso Papa Bento XVI – conhecendo-me sei, que ainda vai surgir vez por outra, o mesmo nome, ato falho memorável!? – isto acontece como uma morte programada e anunciada. Morte-em-vida. “Visão [vivência] mais cristã do tempo de Deus como não –Poder”[3]. Isto é: o cristianismo em estado quase puro. Penitência como purificação: Um só Desejo: Servir com Humildade, até ao Fim. Assim quando encaramos a Morte como Fidelidade á Vontade-de-Deus, a Morte deixa de ser inimiga mortal, mas passará a ser irmã em humanidade. Morre como Papa, continua Bispo e Cristão. Morte Pascal prenúncio de Ressurreição.
3. Obrigado por ser como é. Não-querer-ser-como-todos-os-outros. Renúncia generosa ou a vida também se lê. Renunciou a uma vida anormal, para voltar á normalidade da Graça (…claro está/fica que nunca esteve fora dela!). Renunciou a horas mal dormidas, para ter horas de leitura e oração. Renunciou a não ter dias de folgas, para ter todas as folgas preenchidas com o Silêncio-de-Deus. Entretanto, porque sou muito daquilo que tive a oportunidade e dever de ler. Obrigado: pelas encíclicas, Deus caritas Est, pela Spe Salvi, e, sobretudo, pela encíclica social, Caritas in Veritate, esta ainda não li toda como deve ser, mas é um dos melhores textos sobre a globalização solidária. Obrigado: pelos três livros sobre “Jesus de Nazaré”, o primeiro li e reli, sublinhei e risquei, e continuará em mim na força da diferença-teológica-arrumada, confesso que quase li o número dois, “Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição”, e conto pegar nele, novamente, nesta Semana Santa; e paginei capítulos, com muito interesse, do volume sobre “A Infância de Jesus”, depois de todas as “imprecisões e crimes opinativos[4]” - mais uma vez e nunca a última - sobre o que o papa não escreveu no livro, a sua releitura impõe-se. Sobretudo, estou a ler “Introdução ao Cristianismo” uma verdadeira pérola teológica.
4. Tradição é sempre interpretação - “segundo a Escritura”[5]. Não há que ter medo do futuro. Terrível a leitura sociológica presente no neologismo «cristianofobia», como lição/moda pós-moderna, na espuma dos nossos dias stressados. O seu legado «ratzingeriano» contra a ditadura do relativismo é o antídoto necessário. O futuro a Deus pertence: isto se a responsabilidade humana, no presente, não for descartada. Não deverá haver votos marcados dentro/fora do Conclave (!?). A Fé é o bom combate, o papa emérito dentro da Tradição já o recordou: “como dizia santo Agostinho, a História mundial é uma luta entre dois tipos de amor: o amor por si próprio – até à destruição do mundo – e o amor pelo Outro – até à renúncia de si próprio. Esta luta, que sempre pudemos presenciar, também está a acontecer agora[6]. Mesmo dentro da eleição? Sim dentro eleição. Pois o papa não é votado, por Anjos…, por Mulheres.., mas por Homens, celibatários, com o ónus da nomeação de Cardeais-Eleitores, que sendo batizados, vão ser iluminados pelo Espírito Santo. Haja abertura e fidelidade aos Sinais dos Tempos. Apenas isto: «Se sou batizado, devo ser um convertido feliz». Que o novo Papa nos conduza à Bem-aventurança Evangélica!
Pedro José, CDJP, Gafanha da Nazaré/Encarnação, 27-02-2013, caracteres (incl. esp), 5718.

[1] “Poucos papas, salvo o angustiado Paulo VI, terão vivido tão literal mas também tão calmamente a banalizada “morte de Deus” na consciência contemporanea como Bento XVI”, LOURENÇO, Eduardo, “O peso da tiara abolida” in Público, 15-02-2013, p.47.
[2] BENTO XVI – Luz do mundo: Uma conversa com Peter Seewald, Lucerna, Cascais, 2010, p.69.
[3] “Depondo como quem descansa o peso da sua tiara virtualmente anacrónica e renunciando nela a uma “ternidade” inumana por uma outra visão mais cristã do tempo de Deus como não –Poder, o mais suave dos papas não dilacera a túnica sem costura do Cristo (há tantos séculos dialcerada). Restitui-lhe o sentido e o esplendor da única etenridade que conta aos olhos de um cristão. E que não é a de ouro e seu peso de sangue, nem glória e sua ilusão, mas a da consiência do seu nada no espelho do tempo mortal do nosso coração”, LOURENÇO, Eduardo, “O peso da tiara abolida”, in Público, 15-02-2013, p.47.
[4] Uma voz crítica para saber ler: MESSORI, Vittorio, “Ipotesi sul Papa. E sulla Chiesa che verrà” in Corriere della Sera, 17-02-2013. E no seu blog [http://www.et-et.it/] todo um manacial de artigos para saber ler, como exemplos: “Quella lettura politica che sfigura la Chiesa”; “Quel mio primo incontro con Ratzinger”; “l'eredità di Benedetto XVI è la fede”.
[5] Cfr. E.M. TERRA, João, S.J., Itinerário Teológico de Bento XVI, Editora Ave-Maria, São Paulo, 2006, p.74ss. 
[6] BENTO XVI – Luz do mundo: Uma conversa com Peter Seewald, Lucerna, Cascais, 2010, p.65.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Num tempo difícil, levantar o olhar e ver sinais de esperança


Ao designar 2013 «Ano Europeu dos Cidadãos», a Comissão Europeia está a cumprir a promessa feita no Relatório sobre a cidadania da UE e a dar resposta ao apelo do Parlamento Europeu para ser tomada esta iniciativa.
O objetivo do Ano Europeu dos Cidadãos consiste em facilitar aos cidadãos da União o exercício do seu direito de circular e residir livremente no território da UE, assegurando um fácil acesso às informações sobre os seus direitos. (CE, 2012)[i]
A Comissão Justiça e Paz, da Diocese de Aveiro, pretendendo, nestes tempos de dificuldade, dar sinais à esperança releva práticas de quem com pouco muito faz, dá a conhecer as denegações da justiça e as violações dos direitos do homem que se verifiquem em situações concretas, recolhendo elementos objetivos completos sobre tais situações, formular juízos acerca delas e afirmar a sua solidariedade cristã para com as vítimas, quando a gravidade dos casos o justifique, faz o anúncio das atitudes e dos fatos mais significativos que promovam os valores da justiça, da paz e dos direitos do homem.
A última reunião da CDJO foi uma reunião-visita a instituições que fazem trabalho no concelho de Ílhavo, revelador do envolvimento de organismos da Igreja (ou próximos) com as comunidades e das crescentes dificuldades sociais. Sem ficar na confinados à reflexão tem a vantagem de nos desinstalar, de nos permitir ganhar contacto com outras realidades e experiencias e, ainda que numa dimensão muito modesta, prestar tributo a quem faz do seu exemplo a atualização do pensamento social da Igreja.
Ir ao encontro de três instituições do concelho de Ílhavo (Obra da Criança, Lar do Divino Salvador, Grupo de Jovens “A Tulha”) e conhecer a sua ação social foi o principal objetivo. Num tempo de crise de identidade, solinhamos a urgência de ‘in loco’, tomar contacto com as entidades que promovem junto das populações locais, conforme o seu carisma, os valores da solidariedade, da fraternidade, da caridade e da reabilitação/promoção do outro e cultura local.
É tocante constatar a prática da Caridade, que se baseia no Amor ao Próximo, como acontece no Lar Divino Salvador. É admirável o facto das necessidades e dificuldades serem entendidas como uma oportunidade para crescer e melhorar (CDSI, 57).
Ver na primeira pessoa, o carisma fundador das respetivas instituições, que desde a criança/adolescente, em risco por diversas razões; passando pela mãe adolescente, ou à mulher, de reconhecido “estatuto” ou não, enquanto vítima de “violência doméstica”; até aos jovens que se assumem como protagonistas das tradições e da cultura na comunidade local. Um verdadeiro intercâmbio de dons entre Gerações. Nesta ação as «Idades da Vida» surgem, e impõem-se, como o antídoto para um mundo aparentemente sem conserto, desgovernado e desencantado, pela «Lei-da-força-do-mais-forte». Outra face do «Dia da Visita» da Missão Jubilar (e este será um dos segredos da MJ, nos seus dias “11”, estarão sempre presentes como possibilidade de realização contínua: antes, hoje é o dia, e sempre!).
Desta reunião-contacto direto com a realidade, emergem:
1. Um projeto acredita que mais do que monitores e técnicos, e eles são necessários cada vez mais na sua competente profissionalização, nós precisamos de um «Lar» e da figura imprescindível do «Pai/Mãe», sempre quando caímos, para que haja crescimento em autonomia responsável: a recriação permanente d’Obra da Criança! No apadrinhamento empresarial corresponsável e da sociedade civil ativa - que primeiro «até» rejeitava permissivamente na base do preconceito «má consciência» -, agora defende a gestação da Vida, de modo precoce, ou promove a Mulher contra a violência desumana e cruel, de que ainda é vítima bem perto de nós: a renovação sinergética do Lar do Divino Salvador! Uma esperança maior renasce quando os jovens, são levados e se levam a si próprios, com seriedade, através de experiências incubadoras em criatividade e liderança, ao serviço da cultura na comunidade local, de modo intergeracional: o carisma - autêntico «case study» - da Associação Juvenil «A Tulha»!
2. Importância da ação social Igreja. Os organismos ligados à Igreja Católica prestam um inestimável contributo para minorar as dificuldades dos cidadãos e, não raras vezes, preenchem uma lacuna que o Estado não consegue resolver. A relação financeira entre Estado e IPSS é um campo em permanente tensão. Os organismos e instituições católicos da área social prestigiam a Igreja aos olhos da sociedade porque, cumprindo a sua obrigação, são a prova de que a fé não fica entre as paredes de um qualquer templo. Por outro lado, também ficou claro que instituições promovidas e geridas por católicos, ainda que sem qualquer vínculo jurídico ou legal, podem ser forma importante de reforço da coesão social e de relação quase natural entre o profano e o sagrado.
3. Apontar ao profissionalismo. Sem menosprezo pelo voluntariado, o voluntarismo não se compagina com a necessidade das instituições se organizarem para servir melhor. Trabalhar com vontade e dedicação não dispensa uma estrutura que permita tirar o maior proveito dos recursos. Para além desta constatação das regras básicas de gestão, a relação com as entidades públicas, e desde logo o Ministério da Segurança Social, obriga a que as instituições adquiram certo grau de profissionalismo. Em prol da transparência e da eficiência.
4. Coesão social, uma urgência. Cada tempo tem as suas dificuldades mas a atual conjuntura traduz-se por um agravamento das condições económicas e por uma pressão social muito significativa (insolvências familiares, corte nas pensões, desemprego, co-habitação de casais separados, abandono escolar, etc). Este é um tempo em que as instituições são chamadas a aumentar a sua atenção aos problemas, independentemente das dificuldades próprias. A Igreja tem uma função importante na denúncia dos efeitos da crise e ganha tanto mais crédito quanto for capaz de se assumir como solidária e acolhedora. Numa palavra: cristã.
A concluir, Uma árvore só cresce direito quando se descobre necessitada duma estaca auxiliar. Não é menos livre por isso. Organização e disciplina. Em todas as instituições, o Carisma está em permanente abertura ao tempo presente, pela fidelidade à «otimização dos recursos humanos e materiais». Nesta «visita» incondicional atualizamos a partilha no Bem Comum. Quem se divide cresce.
O bem-estar e realização pessoal fazem parte do "eu" pessoal, embora diferente dos outros "eu" têm em comum atingir a felicidade. Há momentos gratuitos (entrega incondicional) que nos enriquecem de tal forma que até pensamos que somos importantes.
Nós somos espectadores do mundo e/ou produtores de atos de justiça, ou de omissões injustas. Temos de escolher. A condição do espectador/produtor (e do crente) é o movimento contínuo da «visita» que procura o «lugar» ideal para si e para os demais. Todo o «lugar» é a sua casa; a nossa «casa» acolhe todo o Hóspede em curso. Os testemunhos de Deus somos nós. Nós somos os continuadores do Carisma dos múltiplos fundadores. A Justiça maior do mundo é feita da nossa medida justa em cada dia. Que a visita do nosso próximo nos conduza á Casa Comum!
Aveiro, 15 de fevereiro de 2013.

CDSI (Compêndio Doutrina Social da Igreja
















FAZ TUAS AS OPÇÕES DE JESUS


Pe Georgino Rocha  |  Justiça e Paz, Aveiro

O episódio das provações de Jesus desvenda o drama do ser humano que quer ser fiel ao seu projecto de vida, à sua consciência livre de seduções insidiosas, à sua liberdade soberana, mesmo perante as necessidades mais elementares. Lucas, o narrador do acontecido, que tem alcance simbólico, coloca frente-a-frente o Diabo e Jesus e desenvolve a provocação em três cenas expressivas: a do pão para quem tem fome; a do poder dominar outros para quem se sente dependente; a de dispor de Deus, a seu bel-prazer, para exibição do seu estatuto social e religioso a quem respeita a normalidade da natureza humana e de toda a criação.
O diabo teima e insiste. Jesus resiste e persiste. Ambos se justificam com a palavra de Deus que mostram conhecer muito bem. Ambos tomam a dianteira na provocação: o diabo faz a proposta, Jesus dá-lhe a resposta, abrindo horizontes novos. O “taco-a-taco” mantém-se…, desistindo provisoriamente o diabo. Mais tarde, nas cenas da paixão e do calvário, investe definitivamente e consegue, por meios legais e humanos, eliminar fisicamente aquele que antes não tinha podido vencer. Jesus, porém, mantém a confiança radical em Deus, seu Pai, que o ressuscita da morte e o faz vencedor para sempre. Jesus vê assim confirmadas as opções da sua vida que nós somos convidados a assumir, fielmente, com verdade e entusiasmo.
As provações sedutoras insinuam-se constantemente. O dinheiro/ouro luz, reluz e seduz; o poder  atrai e exibe-se; o êxito afirma-se e impõe-se. E os três pretendem ser os pilares da nossa sociedade, os objectivos de tantas carreiras profissionais, o móbil que condiciona as consciências e faz girar o mundo. A tríade ramifica-se em muitos “filhotes” que a publicidade consumista se encarrega de fazer apresentar de forma insinuante e atraente.
Jesus não nega o que pode haver de verdade nas tentações diabólicas. Para ele á claro que o pão/alimento integral do ser humano é indispensável a todos e, por isso, lembra a necessidade do pão do espírito, da palavra que vem de Deus e se prolonga na palavra humana. Para ele é claro que o poder tem autoridade e força, não de subjugação e eliminação, mas de serviço adequado às situações degradadas para que sejam superadas. Para ele é claro que o êxito é desejável e deve ser legitimamente prosseguido, não à custa dos outros, mas com eles e possibilitar a realização feliz de todos.
A este propósito, evoco com emoção a estória de um antropólogo inglês que estudou durante anos uma tribo sul-africana. Recolhidos dados que - pensava - poderem definir bem o “húmus” da tribo, encontra um “bando” de crianças a brincar. Chama-as e diz-lhes: “Pus junto àquela árvore um saco de rebuçados. Quem chegar lá primeiro, fica com os rebuçados todos para si”. Imediatamente, as crianças dão as mãos e avançam ao ritmo das mais pequenas. Sorridentes, pegam no saco e vêm para junto do antropólogo. “Por que fizestes assim?” - pergunta. “Não podemos deixar que só uma seja feliz e as outras, não”. E o estudioso antropólogo conclui sabiamente: “Aprendi mais com este episódio do que com todo o meu estudo”.
Ser feliz com todos é a proposta de Jesus. Este é o sonho de Deus em realização. Este é o projecto dos discípulos que dá consistência à resistência a todas as forças diabólicas e abre horizontes às nossas lutas diárias. Faz também tuas as opções de Jesus Cristo.