sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Nem tudo na Igreja esteve ou está bem, afirma Bispo Emérito de Aveiro

 
D. António Marcelino
«Se não se reconhecer o caminho aberto e pastoralmente urgente para uma renovação, séria e consequente, a operar em tempos difíceis como os atuais, o retrocesso é inevitável e a debandada não parará. Não falta gente capaz que todos os dias se gasta generosamente. Não falta a certeza de que Deus está empenhado nesta causa. Falta talvez a confissão das culpas e o propósito sério de prosseguir. Mas isto tem a ver com toda a Igreja, sem que desta missão alguém se possa escusar.»
Quando João Paulo II pediu desculpa dos erros e desvios da Igreja ao longo da história, não faltou gente a dizer que foi um gesto perigoso, pois, desse modo, estava a dar motivo para novos ataques por parte dos seus inimigos. O mesmo aconteceu com Bento XVI ao sentir-se humilhado publicamente e indo ao encontro das vítimas dos crimes de pedofilia, cometidos por gente da Igreja e em instituições a ela ligadas. Hoje já aparecem bispos a reconhecer que o afastamento da Igreja se deve ao facto da pouca formação recebida e da falta de sentido de pertença ao povo de Deus por parte de gente que andou anos e anos pelos templos e se foi empobrecendo na sua fé. 
Este sentimento de culpa não agrada aos que continuam marcados pela velha apologética, para a qual a Igreja é impoluta e tudo nela tem justificação ante as críticas, juízos e atitudes de quem vive fora e lhe quer mal.
Já no Concílio Vaticano II foi difícil, pelo peso de uma tradição que mais pensava no prestígio institucional, reconhecer os pecados da Igreja, passados e presentes, não entrando no documento final sobre a Igreja, a expressão “Igreja pecadora”, que foi substituída por uma outra mais suave, “Igreja santa, mas sempre necessitada de purificação”. Mesmo assim, ainda há quem reaja a esta confissão pública, mais lhe agradando dizer-se “Igreja santa e povoada de santos”.
A primeira condição para uma renovação, pessoal e comunitária, é reconhecer que nem tudo na Igreja, a todos os níveis, pessoais e institucionais, esteve ou está sempre bem, sentimento acompanhado de uma vontade séria de entrar no caminho do Evangelho, que é para o cristão o caminho da verdade a seguir e a professar. Em linguagem mais exata dir-se-á vontade de conversão a Cristo e ao seu projeto salvador. Um caminho sempre possível, porque Ele mesmo o andou e o apontou aos que nele acreditam e O querem seguir livremente.
Não creio que seja alguma vez possível analisar as crises da Igreja sem procurar as suas verdadeiras causas. São muitas as crises que se enfrentam hoje: crise de fé de muitos batizados, de diálogo no interior da comunidade eclesial e com a sociedade, de presença apostólica na sociedade, de vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada por amor ao Reino, crises das famílias e dos jovens e de credibilidade num mundo cada vez mais atento e crítico…
A Igreja tem de procurar as causas dentro de si própria, no seu agir diário, nas prioridades que dá à sua ação, nos objetivos que persegue em virtude da sua missão, na formação que ministra aos mais responsáveis, no esforço de atualização ante as mudanças sociais e culturais, na falsa conceção de que a catequese é para os sacramentos e menos para a vida cristã. Sempre consciente de que o que determina a sua vida é força que leva consigo. Fora dela apenas encontra condicionamentos e interpelações que não a deixam nem adormecer, nem instalar.
Não será fácil encontrar na história uma instituição religiosa que, a nível mundial, conte ou tenha contado para a realização dos seus fins, com um tão grande número de gente generosa, permanente ou voluntária, com tantas possibilidades de agir livremente, com tantos meios de formação acessíveis. Porque se chegou, então, ao século XXI, em países de tradição cristã, a uma tão grande debilidade da fé e do sentido de pertença, a um individualismo corrosivo, sempre em crescimento, a uma manifesta desafeição pelo trabalho pastoral programado e realizado de modo orgânico e em conjunto, a um predomínio de clericalismo serôdio e doentio, a uma atitude pouco sensível à presença apostólica em campos de fronteira, a uma alargada dificuldade no acolhimento e no trabalho com os leigos, a uma tentação do vistoso em detrimento do essencial, a uma difícil compreensão de que a Igreja, por natureza e por missão, é pobre e para os pobres, a um medo de os jovens batizados e confirmados se comprometerem, de modo definitivo e permanente, tanto no matrimónio, como em formas de compromisso, por inteiro, à missão evangelizadora?
Se não se reconhecer o caminho aberto e pastoralmente urgente para uma renovação, séria e consequente, a operar em tempos difíceis como os atuais, o retrocesso é inevitável e a debandada não parará. Não falta gente capaz que todos os dias se gasta generosamente. Não falta a certeza de que Deus está empenhado nesta causa. Falta talvez a confissão das culpas e o propósito sério de prosseguir. Mas isto tem a ver com toda a Igreja, sem que desta missão alguém se possa escusar.
António Marcelino
(in Correio do Vouga http://www.ecclesia.pt/correiodovouga/, consultado em 2013.02.08)











quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Apóstolos da força e da beleza da fé - Mensagem de D. António Francisco Santos


Iniciamos este mês sob o signo da vida consagrada. O dia 2 de Fevereiro, dia litúrgico da Apresentação do Senhor foi, desde há muito, escolhido por João Paulo II como o Dia da Vida Consagrada.
Reunimo-nos, nesse dia, na Sé de Aveiro com os consagrados e consagradas da Diocese para darmos graças a Deus por este dom concedido à Igreja e pela sua presença, carismas, testemunho e acção em todos os nossos Arciprestados. Celebremos, assim, ao longo de todo este mês, de forma jubilar, a alegria da generosidade e o testemunho da fidelidade com todos os consagrados e consagradas da nossa Diocese.
Há vinte e cinco anos, nesse mesmo dia, faziam a sua consagração, como Leigas de Nossa Senhora do Sim, o primeiro grupo diocesano de oito mulheres decididas a confiarem a Deus, nesta Igreja de Aveiro, a sua vida entregue para servir o mundo. Uma já partiu ao encontro do Pai e outras vieram posteriormente juntar-se ao grupo inicial. Damos graças a Deus pelo dom da sua vocação e pelo testemunho da sua fidelidade.
Ao procurarem viver a radicalidade dos conselhos evangélicos, os consagrados e consagradas são apóstolos incansáveis da força e da beleza da fé. São verdadeiros «catecismos abertos», onde tanta gente tem encontrado os «conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada» (Bento XVI, A Porta da Fé, 9).
Impelidos pelo amor de Cristo, como verdadeiros peregrinos da fé, os consagrados estão na primeira linha da frente do serviço à causa do anúncio do evangelho das bem-aventuranças.
Que esta seja, também, a hora de ver surgir na nossa Diocese novas vocações para o ministério ordenado e para a vida religiosa e consagrada no meio do mundo, pela diversidade de tantos carismas e pela beleza do mesmo testemunho de amor a Deus e serviço aos irmãos. “Vive esta hora!”
Um dia vou visitar-te
Coincide a nossa Missão 11 de Fevereiro e o Dia da Visita com o Dia Mundial do Doente, que João Paulo II escolheu, por referência ao dia litúrgico de Nossa Senhora de Lurdes.
Por entre a agitação do trabalho, a preocupação do (des)emprego, o ritmo frenético da vida falta-nos tempo e lugar para olharmos, ouvirmos e estarmos próximos dos nossos irmãos, que estão doentes ou vivem sós e se encontram esquecidos e abandonados.
Esses irmãos nossos têm nome e rosto. São muitas vezes nossos pais e avós, nossos irmãos e vizinhos e nossos companheiros de vida. E são todos nossos contemporâneos!
São irmãos nossos: abrigam-se sob o mesmo céu, mesmo quando não têm abrigo; percorrem os mesmos caminhos, mesmo quando o chão da vida lhes foge e os seus pés se sentem magoados pelas asperezas de tanto caminhar; falam a mesma língua, mesmo que ninguém os ouça ou já ninguém os entenda; calam as mesmas dores e gritam sofridas revoltas, mesmo que não haja leis para os defender; aguardam misericórdia e esperam compaixão, mesmo quando marcados pelo estigma da pena ou da discriminação mercê do mal feito.
Somos convidados a visitar alguém para que não haja ninguém que não tenha neste dia quem o visite. Que essa visita não seja um instante fugidio mas sim uma presença que dê tempo à escuta, que ofereça voz à proximidade, que se faça companhia ao jeito do bom samaritano, como quem ama, cuida e dá vida.
Vamos como mensageiros do Senhor. Somos presença de Deus. Levamos na alma, no coração, no olhar e na fé a certeza de que ser feliz é fazer feliz os outros: “Um dia vou visitar-te…hoje é o Dia!”
CatequesesInicia-se no próximo dia 13 a Quaresma. A mensagem do Santo Padre Bento XVI para esta Quaresma parte da bela afirmação de S. João na sua primeira Carta: “Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele” ( 1 Jo 4, 16).
Ao longo deste tempo e com este mesmo espírito de discípulos de Cristo que conhecem o amor de Deus e crêem nele vamos desenvolver, nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma, em simultâneo nas 101 paróquias da Diocese, cada uma das três Catequeses da Missão Jubilar.
Descobriremos, assim, o encanto de sermos Comunidade cristã, onde encontramos na diversidade de carismas, de dons e de ministérios membros da comunidade disponíveis e preparados para viverem este dom da missão que é ensinar. Vamos todos aprofundar e fortalecer as razões firmes da nossa fé, esperança e caridade para que sejamos verdadeiros discípulos de Cristo, mensageiros das bem-aventuranças do Reino e construtores desta Igreja de Jesus Cristo em Terras de Aveiro.
A Missão Jubilar não é apenas memória de uma data histórica. É, antes de mais, o aproveitar de uma data importante para ajudar a crescer a consciência evangélica e eclesial em cada diocesano e em cada paróquia, em cada comunidade e em cada grupo.
Nos temas propostos, as referências ao II Sínodo Diocesano são essenciais, dado que aí devemos voltar em permanência para colhermos os frutos de um longo trabalho de sementeira realizada ao longo do tempo da nossa história como Diocese restaurada. Celebramos esta Missão Jubilar cinquenta anos depois do início do Concílio que constitui para todos nós um marco incontornável da renovação da Igreja e de incentivo ao ânimo evangelizador e ao diálogo com o mundo.
Quero, neste horizonte já próximo das Catequeses, deixar uma palavra de muita gratidão e renovado incentivo aos missionários a quem incumbe a orientação das Catequeses da Missão Jubilar. Reconheço que não é tarefa fácil, mas sei igualmente que é missão imprescindível para o anúncio do evangelho. Vejo a vossa missão como um serviço necessário de anúncio da fé, de formação cristã, de consolidação do nosso viver em comunidade e do nosso amor aos nossos contemporâneos.
Esta é uma bela experiência de fé e de vida eclesial pela disponibilidade generosa encontrada em tantas centenas de missionários, chamados das suas terras e comunidades, para irem ao encontro de novas terras e diferentes comunidades e para testemunharem pela palavra e pela vida a fé, cuja beleza querem ajudar a descobrir, a professar, a viver, a anunciar e a celebrar.
Os missionários vão cruzar os caminhos da Diocese como livro aberto onde as crianças, jovens e famílias por inteiro podem aprofundar a fé e descobrir que pela formação cristã passa a necessária renovação da Igreja.
Estou certo de que as Catequeses assim preparadas, vividas e realizadas oferecem a toda a Diocese na sua intencionalidade, conteúdo e valor um momento fundamental da nossa Missão Jubilar.
Incentivemos todas as pessoas e comunidades da nossa Diocese a participar e a sentir que deste modo se realiza a palavra de Jesus dita na sua terra ao ler na Sinagoga de Nazaré a profecia de Isaías (Is 61, 1-2):
“O Espírito do Senhor me escolheu, me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova. «Cumpriu-se hoje a palavra que ouvis».
Todos davam testemunho de Jesus e se admiravam com as suas palavras repletas de graça e de sabedoria” (Luc. 4, 21-22 ).
Aveiro, 4 de Fevereiro, Memória litúrgica de S. João de Brito, de 2013António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro





















sábado, 2 de fevereiro de 2013

ATREVE-TE A SER COERENTE


Georgino Rocha  |  Justiça e Paz – Aveiro
O diálogo de Jesus com os presentes na sinagoga de Nazaré põe em evidência uma coerência ousada que provoca reacções extremas. Não deixa ninguém indiferente. Dois campos se distinguem claramente. Os nazarenos passam da admiração à desconfiança, à contestação, à rejeição, ao propósito de eliminação física. Jesus, sereno, proclama a mensagem do profeta que aplica a si, e, de forma cáustica, interpela fortemente os seus contestatários. “Nenhum profeta é bem recebido na sua terra” – diz-lhes, ilustrando o alcance desta afirmação com o que aconteceu a Elias e a Eliseu. Um e outro “atendem” e são ajudados por pessoas estranhas a Israel, coisa legalmente impensável pelo contacto de “impureza” que provocava.
Profundamente desconsiderados – assim pensam – tentam desfazer-se de Jesus e silenciar definitivamente a ousadia do recém chegado de uma viagem por terras de Cafarnaum. Por isso, armam a estratégia de morte, atirando-o do cimo da colina da cidade. Mas, Jesus atreve-se a controlar os sentimentos e os acontecimentos e “passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”. Manifesta a coerência de atitudes com as convicções, de comportamentos com as opções, de formas de proceder com a mensagem anunciada. Vive o que diz. Sem hesitações. É igual a si mesmo. E mostra-nos o alcance da ousadia da coragem, deixando-nos o convite/apelo: Atreve-te a ser coerente. Sê tu mesmo. Pensa e age por ti, ainda que vás contra-a-corrente. Vê em que alicerças as tuas certezas.
Este convite/apelo constitui uma boa notícia para a humanidade. Só com mulheres e homens íntegros e coerentes recuperamos a nossa comum dignidade, assumimos a verdade da nossa originalidade, estabelecemos laços de fraterna solidariedade em prol do bem de todos, damos solidez à organização humanizada da sociedade e vamos lançando as sementes sadias de um futuro auspicioso em que todos se reconhecem irmãos porque filhos do mesmo Deus Pai.
Atreve-te a ser honesto contigo mesmo, a valorar a tua condição humana integral, a erguer bem alto a voz da tua consciência (in)formada, a correr riscos pelo bem dos outros, a não pactuar com injustiças e corrupções, a defender a função social dos bens em todas as circunstâncias, a procurar a sintonia entre o coração e a razão, a dar passos para, como Jesus, anunciar a boa nova da vida plena por todas as cidades e aldeias, famílias e associações. Atreve-te a ser coerente! Magnífico programa pessoal e colectivo que galvaniza todas as nossas capacidades e nos faz construir desde já o presente que tanto amamos..       

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Mensagem do Papa para o Dia Mundial do Doente – Fev 2013

 
«Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37)
 
Amados irmãos e irmãs!
1. No dia 11 de Fevereiro de 2013, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, celebrar-se-á de forma solene, no Santuário mariano de Altötting, o XXI Dia Mundial do Doente. Este dia constitui, para os doentes, os operadores sanitários, os fiéis cristãos e todas as pessoas de boa vontade, «um momento forte de oração, de partilha, de oferta do sofrimento pelo bem da Igreja e de apelo dirigido a todos para reconhecerem na face do irmão enfermo a Santa Face de Cristo que, sofrendo, morrendo e ressuscitando, operou a salvação da humanidade» (João Paulo II, Carta de instituição do Dia Mundial do Doente, 13 de Maio de 1992, 3). Nesta circunstância, sinto-me particularmente unido a cada um de vós, amados doentes, que, nos locais de assistência e tratamento ou mesmo em casa, viveis um tempo difícil de provação por causa da doença e do sofrimento. Que cheguem a todos estas palavras tranquilizadoras dos Padres do Concílio Ecuménico Vaticano II: «Sabei que não estais (…) abandonados, nem sois inúteis: vós sois chamados por Cristo, a sua imagem viva e transparente» (Mensagem aos pobres, aos doentes e a todos os que sofrem).
2. Para vos acompanhar na peregrinação espiritual que nos leva de Lourdes, lugar e símbolo de esperança e de graça, ao Santuário de Altötting, desejo propor à vossa reflexão a figura emblemática do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). A parábola evangélica narrada por São Lucas faz parte duma série de imagens e narrações tomadas da vida diária, pelas quais Jesus quer fazer compreender o amor profundo de Deus por cada ser humano, especialmente quando se encontra na doença e no sofrimento. Ao mesmo tempo, porém, com as palavras finais da parábola do Bom Samaritano – «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37) –, o Senhor indica qual é a atitude que cada um dos seus discípulos deve ter para com os outros, particularmente se necessitados de cuidados. Trata-se, por conseguinte, de auferir do amor infinito de Deus, através de um intenso relacionamento com Ele na oração, a força para viver diariamente uma solicitude concreta, como o Bom Samaritano, por quem está ferido no corpo e no espírito, por quem pede ajuda, ainda que desconhecido e sem recursos. Isto vale não só para os agentes pastorais e sanitários, mas para todos, incluindo o próprio enfermo, que pode viver a sua condição numa perspectiva de fé: «Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor» (Enc. Spe salvi, 37).
3. Diversos Padres da Igreja viram, na figura do Bom Samaritano, o próprio Jesus e, no homem que caiu nas mãos dos salteadores, Adão, a humanidade extraviada e ferida pelo seu pecado (cf. Orígenes, Homilia sobre o Evangelho de Lucas XXXIV, 1-9; Ambrósio, Comentário ao Evangelho de São Lucas, 71-84; Agostinho, Sermão 171). Jesus é o Filho de Deus, Aquele que torna presente o amor do Pai: amor fiel, eterno, sem barreiras nem fronteiras; mas é também Aquele que «Se despoja» da sua «veste divina», que baixa da sua «condição» divina para assumir forma humana (cf. Flp 2, 6-8) e aproximar-Se do sofrimento do homem até ao ponto de descer à mansão dos mortos, como dizemos no Credo, levando esperança e luz. Ele não Se vale da sua igualdade com Deus, do seu ser Deus (cf. Flp 2, 6), mas inclina-Se, cheio de misericórdia, sobre o abismo do sofrimento humano, para nele derramar o óleo da consolação e o vinho da esperança.
4. O Ano da fé, que estamos a viver, constitui uma ocasião propícia para se intensificar o serviço da caridade nas nossas comunidades eclesiais, de modo que cada um seja bom samaritano para o outro, para quem vive ao nosso lado. A propósito, desejo recordar algumas figuras, dentre as inúmeras na história da Igreja, que ajudaram as pessoas doentes a valorizar o sofrimento no plano humano e espiritual, para que sirvam de exemplo e estímulo. Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, «perita da scientia amoris» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 42), soube viver «em profunda união com a Paixão de Jesus» a doença que a levou «à morte através de grandes sofrimentos» (Audiência Geral, 6 de Abril de 2011). O Venerável Luís Novarese, de quem muitos conservam ainda hoje viva a memória, no exercício do seu ministério sentiu de modo particular a importância da oração pelos e com os doentes e atribulados, que acompanhava frequentemente aos santuários marianos, especialmente à gruta de Lourdes. Movido pela caridade para com o próximo, Raul Follereau dedicou a sua vida ao cuidado das pessoas leprosas mesmo nos cantos mais remotos da terra, promovendo entre outras coisas o Dia Mundial contra a Lepra. A Beata Teresa de Calcutá começava sempre o seu dia encontrando Jesus na Eucaristia e depois saía pelas estradas com o rosário na mão para encontrar e servir o Senhor presente nos enfermos, especialmente naqueles que não são «queridos, nem amados, nem assistidos». Santa Ana Schäffer, de Mindelstetten, soube, também ela, unir de modo exemplar os seus sofrimentos aos de Cristo: «o seu quarto de enferma transformou-se numa cela conventual, e o seu sofrimento em serviço missionário. (...) Fortalecida pela comunhão diária, tornou-se uma intercessora incansável através da oração e um espelho do amor de Deus para as numerosas pessoas que procuravam conselho» (Homilia de canonização, 21 de Outubro de 2012). No Evangelho, sobressai a figura da Bem-aventurada Virgem Maria, que segue o sofrimento do Filho até ao sacrifício supremo no Gólgota. Ela não perde jamais a esperança na vitória de Deus sobre o mal, o sofrimento e a morte, e sabe acolher, com o mesmo abraço de fé e de amor, o Filho de Deus nascido na gruta de Belém e morto na cruz. A sua confiança firme no poder de Deus é iluminada pela Ressurreição de Cristo, que dá esperança a quem se encontra no sofrimento e renova a certeza da proximidade e consolação do Senhor.
5. Por fim, quero dirigir um pensamento de viva gratidão e de encorajamento às instituições sanitárias católicas e à própria sociedade civil, às dioceses, às comunidades cristãs, às famílias religiosas comprometidas na pastoral sanitária, às associações dos operadores sanitários e do voluntariado. Possa crescer em todos a consciência de que, «ao aceitar amorosa e generosamente toda a vida humana, sobretudo se frágil e doente, a Igreja vive hoje um momento fundamental da sua missão» (João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici, 38).
Confio este XXI Dia Mundial do Doente à intercessão da Santíssima Virgem Maria das Graças venerada em Altötting, para que acompanhe sempre a humanidade que sofre, à procura de alívio e de esperança firme, e ajude todos quantos estão envolvidos no apostolado da misericórdia a tornar-se bons samaritanos para os seus irmãos e irmãs provados pela enfermidade e o sofrimento, enquanto de bom grado concedo a Bênção Apostólica.
Vaticano, 2 de Janeiro de 2013.
BENEDICTUS PP XVI










segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

FIXOS EM JESUS OS OLHOS DA ASSEMBLEIA


Georgino Rocha  |  Justiça e Paz – Aveiro
A leitura que Jesus faz na sinagoga da sua terra desperta a atenção da assembleia a ponto de todos fixar nele o olhar. A que se deverá esta atenção expectante dos presentes e esta fixação convergente de olhares?
Ao facto de ser um conterrâneo recém-chegado a fazer a leitura, ele que regressava do rio Jordão onde se tinha feito baptizar, começando a sua vida pública? Ao texto escolhido e proclamado, certamente bem conhecido, pois faz parte do livro escrito por um profeta anónimo pelos anos 537-520 e colocado sob a autoridade de Isaías? À mensagem tão contrastante, então como agora, que convida a uma viragem interior completa: os desanimados para alimentarem a esperança, os abandonados para acreditarem que são reintegrados, os pobres e oprimidos para confiarem na libertação que se aproxima? Ao jeito e à posição de Jesus que atraía e insinuava a boa notícia contida na passagem anunciada?
A admiração da assembleia cresce visivelmente quando Jesus se senta e declara realizada a “velha” profecia: “Hoje, cumpriu-se esta passagem que acabais de ouvir”. As suas palavras cheias de encanto suscitam interrogações mais profundas.
A mensagem proclamada constitui o programa/manifesto da missão de Jesus. Lucas coloca-o no início da vida pública para servir de pórtico e facilitar a compreensão de tudo quanto vai dizer e fazer. Esta declaração emblemática destaca a centralidade da pessoa e a circunstância em que vive, o amor de predilecção que Deus tem por cada uma e por todas, o alívio do sofrimento e da humilhação, a recuperação da dignidade perdida pelo pecado pessoal, a reposição da igualdade original simbolizada no ano da graça jubilar.
Esta boa notícia é anunciada aos pobres despojados dos seus bens pelos poderosos e ricos, aos humilhados e às vítimas inocentes da história. É preciso fazer justiça. Só assim, a vontade de Deus se realiza e manifesta na igualdade de todos os humanos, seus filhos. É preciso, como medida inicial, reduzir as desigualdades sociais do mundo e caminhar decididamente na direcção apontada por Jesus. É preciso que o amor seja mais forte do que o dinheiro/capital e provoque a equidade justa em todas as situações.
O evangelho/boa nova não é evasão da realidade. É antes o anúncio alegre e auspicioso da humanidade chamada a realizar a sua vocação plena, a contemplar de “olhos” abertos a dignidade, a liberdade de todos e de cada um, a ser mensageiros de Deus amigo e não concorrente do homem/mulher na busca da verdade, do bem, da vida feliz. A profecia começa a ser cumprida. Agora tem de ser prosseguida. Em Nazaré, os olhos estavam fixos em Jesus. E hoje estão nos cristãos, seus discípulos.                        

sábado, 26 de janeiro de 2013

Como «o querer é já praticar» (cfr. Santo Agostinho, Livro Oitavo, Cap. 8, p.233)

 

Pedro José  |  Justiça e Paz – Aveiro
Há dias em que vivemos um excesso de Graça, tal a proximidade com O Transcendente. Isto de uma maneira extremamente simples. Bastam duas coisas: a hospitalidade transparente - memoria de um passado em comum; e uma causa futura - em que devemos acreditar juntos.
Os rostos mudam e as portas fechadas abrem-se, não importam os resultados meramente materiais. Dias em que não se cresce assim. Decrescemos perigosamente, sem atenção. Não há lugar ao neutro, nem ao meio termo.
Em tudo na Vida, quando se para de avançar, já se está a andar para trás. Sei que não consigo tudo reter. Talvez o coração tenho a capacidade de trabalhar e guardar o principal. A partilha, a amizade e a entrega generosa. Dar de si mesmo. Acreditar infinitamente nas potencialidades dos Outros. O bem comum não se esconde, não se vende, constrói-se.
A Igreja, física e humana, soma os dons individuais e realiza milagres de serviço ao próximo. Vale a pena ser teimoso e tentar "o" fazer. O querer e o praticar são aliados. Vontade e obras. Vencer e convencer. Missão porque houve encarnação. Servir sem rodeios. A obra não pertence ao homem, colaboramos com criatividade e liberdade. Sinto que trabalho pouco. Recebo muito mais do que sou capaz de dar. Que a graça não me seja inútil.
Newark,25 Janeiro 2013, conversão paulina aos irmãos.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SERVIR O VINHO DA ALEGRIA


Georgino Rocha  |  Comissão Justiça e Paz.Aveiro
A boda dos noivos de Caná da Galileia é para Jesus a oportunidade de manifestar a relação do casamento natural com o amor de Deus pelo seu povo. A relação tem o valor de símbolo e a manifestação constitui o primeiro sinal da novidade que Jesus traz à realidade humana, conjugal e familiar. A oportunidade surge quando, no decorrer da festa, vem a faltar o vinho – que provoca um certo desconforto entre os mais atentos e solícitos.
A mãe de Jesus está presente. Dá conta da ocorrência e, discreta, intervém junto de seu Filho, expondo brevemente a necessidade sentida. Dirige-se também aos serventes e recomenda-lhes simplesmente que façam o que ele disser. E a maravilha vai-se realizando: as talhas de pedra que estavam vazias, enchem-se; a transformação da água em vinho, acontece; o teste da prova faz-se e é conclusivo; a necessidade é superada; a serenidade vence a ansiedade; a alegria renasce e redobra de intensidade; o chefe de mesa convence-se e interpela criticamente o noivo; o vinho bom tinha chegado e era para ficar; a mensagem é captada e os discípulos acreditam. E João, o narrador do episódio, afirma que Jesus manifesta assim a sua glória, a missão de que estava incumbido por Deus Pai.
A missão de Jesus consiste em ser o amor humanizado de Deus que perpassa e se realiza, de forma especial, na atenção ao que acontece, na proximidade solícita e  solidária para com os carecidos e aflitos, na valorização dos pequenos gestos, no diálogo interpelante, na alegria do convívio e da festa, na relação conjugal entre homem e mulher, no matrimónio conscientemente assumido e fielmente vivido.
Nas bodas de Caná, tudo aponta para este final feliz. Quem fica nos pormenores e perde a intenção de Jesus pode comparar-se a alguém que quer ver a lua, mas não tira o olhar do dedo de quem aponta a direcção em que ela se encontra. Por mais esforços que faça, nunca alcançará o que pretende e corre o risco de descrer da sua existência, apesar de observar o luar brilhante em noites de céu límpido e estrelado. Assim, quem não alicerça o amor conjugal heterossexual na sua matriz original – a criação do homem e da mulher como seres em relação mútua e recíproca – e na bênção renovadora e reconfortante com que Jesus a enriquece e eleva.
A água e o vinho constituem os elementos materiais que visualizam esta novidade. São realidades normais da vida quotidiana: a água como elemento natural bruto; o vinho, como fruto “da terra e do trabalho humano”; ambos vão ser transformados na eucaristia em dons da salvação. Nas bodas de Caná, tudo é frágil e momentâneo, mas fortemente expressivo. Assim no casamento, realidade humana sujeita a tantas tribulações, mas onde se serve no dia-a-dia o vinho da alegria e do perdão e se faz vida o amor de Deus em sentimentos de comunhão e gestos de doação e entrega.