terça-feira, 23 de outubro de 2012

ESTADO SOCIAL E SOCIEDADE SOLIDÁRIA


Casa de Vilar - Porto | 22 a 25 de Novembro
semana social 2012

«Portugal: o país que queremos ser»


No dia 3 de Novembro a Comissão Nacional Justiça e Paz promove a sua conferência anual ( Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian), em Lisboa. Tendo como tema «Portugal: o país que queremos ser», procurará promover uma reflexão sobre o País, no quadro do mundo globalizado.
Estamos perante desafios importantes da nossa cultura e identidade; num tempo de crise, que também é de oportunidades para repensar modelos de vida e de felicidade individuais e coletivos, e rever instituições, com vista a torná-las mais justas e mais humanas. É tarefa que deve ser participada e que, por isso, impõe de forma clara que cada um se reconheça artífice da construção coletiva.
Programa e inscrições em www.ecclesia.pt/cnjp

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não digamos mais Amen!


 

       ”Nunca o olho do ávido dirá, assim como não o dizem jamais o mar e o Inferno: a mim basta” Mateo Alemán (1547-1614), escritor espanhol (in Público,24.09.2012) que retrata ainda bem o que acontece nas “Ruas de Madrid”, séculos depois…, numa Europa que não sabe gostar si mesma e por tabela arrasta para o fundo a “Ideia-de-Europa”, como bem-estar-colectivo, à qual ninguém quer ajudar, mas diante da qual “todos” querem repetir no modo-de-viver. Instala-se a “lei da selva”; esquecemos o Amor como fruto da Justiça e da Dádiva. Não respeitamos mais as crianças e os idosos. É tempo de voltar ao essencial. Há uma tristeza de barriga-cheia e sonhos ausentes!? Na terra, no mar, nos livros e nas ferramentas (de suor e sem poluição…), bem como dentro de cada um de nós, estará o trabalho apagado e útil, de sabermos rezar com a Cruz-de-cada-dia, isto é, não roubarmos mais o Pão-de-cada-dia, a quem de Direito, por Dever solidário. Não digamos mais Amen!

Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação, 26-09-2012

terça-feira, 4 de setembro de 2012

PÃO REPARTIDO SACIA MULTIDÃO

 A atitude da multidão denota o alcance da acção missionária de Jesus. Vê o que faz aos doentes e sente-se atraída. Deixa o rame-rame da vida e segue-o. Deleita-se com os ensinamentos que ouve e nem sequer se preocupa com a fome que lhe consome as energias. Experimenta o olhar compadecido de Jesus e aguarda paciente a palavra/resposta às necessidades prementes. Obedece à ordem de Jesus dada pelos apóstolos e senta-se na erva dos campos. Agrupa-se, recebe o pão que lhe é entregue e come até ficar saciada. Conserva o que sobra e deposita-o nas mãos dos encarregados da recolha. Admira a acção extraordinária de Jesus – sinal de uma outra realidade ainda mais sublime - e entusiasma-se tanto que o identifica com o profeta prometido e se propõe aclamá-lo rei. Desolada, vê-o partir sozinho para o monte, como fazia de vez em quando, e fica na expectativa. A desolação da multidão é compreensível. Tudo apontava para Jesus ser o profeta esperado, o rei anunciado, o messias desejado. A beleza e o encanto dos ensinamentos, a irradiação e a proximidade do agir, a autoridade e eficácia da palavra, e tantos outros sinais indiciavam essa possibilidade. E não era engano! Mas Jesus quer positivamente mostrar que o caminho do Messias prometido era outro: o do serviço humilde e despretensioso, o de valorar as capacidades humanas naturais e adquiridas, o de confiar em Deus e bendizer a preferência pelos mansos e humildes, o de enfrentar e superar as adversidades, ainda que “pagando” dolorosamente o respectivo custo, o de realizar o projecto que Deus lhe confiara, ainda que ficasse só e incompreendido. O episódio da “multiplicação” dos pães é apresentado pelos evangelistas como um paradigma da realização deste projecto. Ontem como hoje, as multidões têm fome de toda a espécie de pão que corresponde a todas as dimensões do ser integral da pessoa humana. Fome de pão é grito por uma vida digna, por um acesso razoável e equitativo aos bens de todos, por uma liberdade segura, por um amor inquebrantável e solidário, por uma participação responsável na promoção do bem comum, por uma aceitação respeitosa e valorativa da relação com o transcendente, com Deus que historicamente se configura de tantos modos e se humaniza em Jesus Cristo. Fome de pão é grito de denúncia de tudo o que privilegia uns e explora outros, dos mendigos sem nada e dos ricos cheios de si mesmos e dos bens. Saciar esta fome é direito/dever de todos. O diálogo de Jesus com Filipe e André, embora simbólico, é conclusivo. A multidão vivia do ganho diário. Não havendo trabalho, ficava sem provisões. Nesse tempo, mais de 70% estava sujeita a esta contingência. A contratação era feita na praça pública. A paga da jornada por inteiro equivalia a um denário, importância indispensável para a alimentação do dia. Sem ela, havia fome e mais fome, tantas vezes, acumulada pela falta sucessiva de trabalho, do pagamento do salário, da exploração e da fraude. A esta luz, como podia a multidão ir à cidade para comprar pão, como sugerem os apóstolos? Insensatez ou provocação? Descartada esta hipótese, Jesus continua preocupado com a fome da multidão. E dá um passo em frente no diálogo: Responsabiliza os apóstolos por arranjarem alimento suficiente e não apenas um bocadinho para cada um. Tarefa árdua e inconcebível. Apesar de tudo, a confiança no Mestre leva-os a procurar. Encontram um rapazinho com farnel de dois peixes e cinco pães. Convidam-no a ceder o que tinha e levam-no a Jesus. (Grande simbolismo está contido neste gesto simples do jovenzinho!). E a maravilha acontece. A oração de bênção faz do farnel uma “fonte de abastecimento” constante com pão fresco e pronto a ser servido pela comunidade dos crentes. Tal o sentido escondido nos cinco pães e nos dois peixes. A fome no mundo constitui um desafio permanente à consciência da humanidade e da Igreja. Para cooperar com Deus, senhor de todos os bens, e ser agente de intervenção na sociedade de todos, sem excepção. A celebração da eucaristia constitui o memorial sacramental desta responsabilidade histórica. Em cada domingo, o Senhor Jesus nos intima: dai-lhe vós mesmos de comer. E como os apóstolos, somos impelidos a conjugar esforços, a ceder farnéis, a partilhar criteriosamente e a não deixar que nada se perca. Georgino Rocha, Justiça e Paz Aveiro

segunda-feira, 30 de julho de 2012

VINDE COMIGO E DESCANSAI
 “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco” é o apelo e a recomendação de Jesus, após ter acolhido e ouvido os discípulos regressados da primeira experiência missionária. A narração do que acontecera deixava perceber que a missão decorrera bem. As instruções tinham sido observadas. A confiança na palavra do Mestre estava confirmada. O êxito enchia de alegria contagiante o coração de todos. A sobriedade de meios, a simplicidade de vida, a itinerância doméstica, a eficácia do anúncio, a libertação do espírito oprimido pelas forças do mal são credenciais comprovadas e adquirem valor distintivo de quem é discípulo de Jesus em qualquer circunstância. Marcos – o autor deste relato – condensa a atitude do Mestre no apelo à união fraterna e na recomendação ao descanso revigorante. “Vinde comigo” e tomaram a barca a fim de fazerem a travessia do mar de Tiberíades, rumo à outra margem. A travessia converte-se de facto real em símbolo da trajectória humana ao longo da vida, em expressão da evolução do mundo interior de cada um, em sinal da maturidade alcançada por quem deseja saber conviver em sociedade e transmitir uma herança valiosa às gerações vindouras, em ícone da Igreja peregrina, inserida na história, próxima de todos, que sabe comtemplar e agir “a tempo e fora de tempo”, como testemunha São Paulo. A barca ia deslizando sobre as águas e os discípulos saboreando o ambiente repousante na companhia do Mestre. O percurso terá sido o espaço do descanso. Não tanto físico, mas psicológico e espiritual. Constituem dimensões fundamentais de um repouso consistente e gratificante: o estarem juntos, na companhia do Mestre, partilhando experiências e ouvindo comentários de apreço e valorização, o dialogarem sobre expectativas que alimentam sonhos e criam impulsos de aventura audaciosa, o verem-se confirmados no desempenho da missão confiada e, sobretudo, o de serem reconduzidos à fonte da verdadeira alegria – Deus que tem o nome de cada um inscrito no seu livro de bênção. Marcos deixa-nos o núcleo principal de umas boas férias vividas à maneira humana, de forma integral. Manifesta que o activismo é esgotante, que o barulho das multidões é enervante e alienante, que a natureza da vida tem ritmos marcantes para o seu equilíbrio, que a escolha de espaços agradáveis, cheios de luz e silêncio, de ar puro e sol aberto, proporcionam bom ambiente e excelente oportunidade, que o reencontro de cada pessoa consigo mesma e a pacificação do seu espírito – sempre desejados e nunca plenamente alcançados - expressam a qualidade das férias pretendidas e, como acontece com os discípulos de Jesus, vividas com alegria serena e confiante. O descanso faz parte da dignidade humana, manifesta a semelhança original do homem com Deus – ao séptimo dia, Deus descansou - e aponta para o futuro definitivo – felizes os que morrem no Senhor, desde agora descansam em paz porque as suas obras os acompanham – garante o Apocalipse. O descanso convida à contemplação da beleza e da bondade, à experiência fruitiva do lazer, à valoração da sabedoria, ao crescimento humano, à satisfação das carências fundamentais a fim de alcançar uma personalidade amadurecida. O lazer – expressão qualificada do bem-estar humano – pode ser alcançado de formas diversas: leituras amenas, exercícios físicos e espirituais, convívios agradáveis, férias de distensão, práticas desportivas, passeios e excursões, reuniões familiares, celebrações festivas, designadamente as do domingo e a participação na assembleia eucarística, memorial do amor com que Deus nos ama. O descanso e o lazer são vitais para a pessoa cultivar o seu ser integral. Fazem bem ao corpo e ao espírito. O exemplo de Jesus constitui o gérmen das férias dignas da condição humana que a história veio a consagrar em direito e que a legislação laboral vem delimitar. Oxalá que acertadamente para todos!
 Georgino Rocha, Justiça e Paz Aveiro