segunda-feira, 30 de julho de 2012

PÃO REPARTIDO SACIA MULTIDÃO A atitude da multidão denota o alcance da acção missionária de Jesus. Vê o que faz aos doentes e sente-se atraída. Deixa o rame-rame da vida e segue-o. Deleita-se com os ensinamentos que ouve e nem sequer se preocupa com a fome que lhe consome as energias. Experimenta o olhar compadecido de Jesus e aguarda paciente a palavra/resposta às necessidades prementes. Obedece à ordem de Jesus dada pelos apóstolos e senta-se na erva dos campos. Agrupa-se, recebe o pão que lhe é entregue e come até ficar saciada. Conserva o que sobra e deposita-o nas mãos dos encarregados da recolha. Admira a acção extraordinária de Jesus – sinal de uma outra realidade ainda mais sublime - e entusiasma-se tanto que o identifica com o profeta prometido e se propõe aclamá-lo rei. Desolada, vê-o partir sozinho para o monte, como fazia de vez em quando, e fica na expectativa. A desolação da multidão é compreensível. Tudo apontava para Jesus ser o profeta esperado, o rei anunciado, o messias desejado. A beleza e o encanto dos ensinamentos, a irradiação e a proximidade do agir, a autoridade e eficácia da palavra, e tantos outros sinais indiciavam essa possibilidade. E não era engano! Mas Jesus quer positivamente mostrar que o caminho do Messias prometido era outro: o do serviço humilde e despretensioso, o de valorar as capacidades humanas naturais e adquiridas, o de confiar em Deus e bendizer a preferência pelos mansos e humildes, o de enfrentar e superar as adversidades, ainda que “pagando” dolorosamente o respectivo custo, o de realizar o projecto que Deus lhe confiara, ainda que ficasse só e incompreendido. O episódio da “multiplicação” dos pães é apresentado pelos evangelistas como um paradigma da realização deste projecto. Ontem como hoje, as multidões têm fome de toda a espécie de pão que corresponde a todas as dimensões do ser integral da pessoa humana. Fome de pão é grito por uma vida digna, por um acesso razoável e equitativo aos bens de todos, por uma liberdade segura, por um amor inquebrantável e solidário, por uma participação responsável na promoção do bem comum, por uma aceitação respeitosa e valorativa da relação com o transcendente, com Deus que historicamente se configura de tantos modos e se humaniza em Jesus Cristo. Fome de pão é grito de denúncia de tudo o que privilegia uns e explora outros, dos mendigos sem nada e dos ricos cheios de si mesmos e dos bens. Saciar esta fome é direito/dever de todos. O diálogo de Jesus com Filipe e André, embora simbólico, é conclusivo. A multidão vivia do ganho diário. Não havendo trabalho, ficava sem provisões. Nesse tempo, mais de 70% estava sujeita a esta contingência. A contratação era feita na praça pública. A paga da jornada por inteiro equivalia a um denário, importância indispensável para a alimentação do dia. Sem ela, havia fome e mais fome, tantas vezes, acumulada pela falta sucessiva de trabalho, do pagamento do salário, da exploração e da fraude. A esta luz, como podia a multidão ir à cidade para comprar pão, como sugerem os apóstolos? Insensatez ou provocação? Descartada esta hipótese, Jesus continua preocupado com a fome da multidão. E dá um passo em frente no diálogo: Responsabiliza os apóstolos por arranjarem alimento suficiente e não apenas um bocadinho para cada um. Tarefa árdua e inconcebível. Apesar de tudo, a confiança no Mestre leva-os a procurar. Encontram um rapazinho com farnel de dois peixes e cinco pães. Convidam-no a ceder o que tinha e levam-no a Jesus. (Grande simbolismo está contido neste gesto simples do jovenzinho!). E a maravilha acontece. A oração de bênção faz do farnel uma “fonte de abastecimento” constante com pão fresco e pronto a ser servido pela comunidade dos crentes. Tal o sentido escondido nos cinco pães e nos dois peixes. A fome no mundo constitui um desafio permanente à consciência da humanidade e da Igreja. Para cooperar com Deus, senhor de todos os bens, e ser agente de intervenção na sociedade de todos, sem excepção. A celebração da eucaristia constitui o memorial sacramental desta responsabilidade histórica. Em cada domingo, o Senhor Jesus nos intima: dai-lhe vós mesmos de comer. E como os apóstolos, somos impelidos a conjugar esforços, a ceder farnéis, a partilhar criteriosamente e a não deixar que nada se perca. Georgino Rocha, Justiça e Paz Aveiro, 26/07/2012
Entre o eu e o nós: todos necessários, todos envolvidos. O que nos liga, prende ou entusiasma, cada vez que voltamos e nossas comunidades? O que nos verdadeiramente, de casa, e em que direção de interesses/valores nos movemos como «presenças assíduas», faça sol ou chuva? O que faz uma pessoa sentir-se membro efetivo e afetivo? O que alimenta o sentido de «referência» e «pertença» a uma comunidade, grupo/instituição, ideal/fé, nação/tradição secular, etc. Mais perguntas que queremos aprofundar ainda no âmbito do «impacto do sentido comunitário». Como pessoas as nossas perturbações negativas diante das perguntas anteriores, surgem no equilíbrio entre dois pólos: autonomia e vínculo. O vínculo durante o crescimento opõe-se à autonomia. Esta vai sendo conquistada por meio de ruturas. No momento da maturidade, percebe-se a importância do vínculo, já não pela dinâmica da necessidade imposta, mas pela compreensão social do seu sentido. Aqui está o ponteo decisivo. Entramos no jogo da nossa liberdade, e para fora da comparação, ela não pode ser deixada “à loteria da marcação dos penaltis”. Diante da sentença “minha/nossa liberdade termina onde começa a liberdade do outro”, defendemos uma versão mais profunda: “minha/nossa liberdade começa onde começa a liberdade do outro”. O outro é visto não como o fim da nossa liberdade, mas como início, parceiro, potenciador da nossa liberdade. Sem ninguém, nunca serei livre. Sou livre junto com os outros. O vínculo comunitário experimentado enquanto «referência» (a counidade apoia e é apoio; informa e deve, sobretudo, formar no número, cor e feitio…), ou enquanto «pertença» (a comunidade permite a identificação, até por discriminação positiva: pobres sempre os tereis!? Somos propriedade e atribuição de Deus, na pessoa do Irmão, meu/nosso próximo, e nunca devemos ser expropriados da nossa liberdade íntima de consciência a caminho da realização). Através deste vínculo de referência e de pertença, acordamos para a dimensão social que inspira, e também transpira, a nossaMissão Jubilar: «destina-se a todos e conta com todos». Vamos caminhar na certeza da capacidade de relacionamento, na necessidade de conviver, na riqueza do encontro com os outros. Mais livres seremos, se trabalhando e rezando em comunidade, cada vez que escolhermos as tarefas e as oportunidades que Deus possa inspirar. «Todos necessários, todos envolvidos». Pedro José, Gafanhas da Nazaré/Encarnação, 28-06-2012, caracteres (incl. esp), 2358. In Timoneiro, nº646, Julho/2012.

domingo, 20 de maio de 2012

JUPAX EUROPA-ACÇÃO CONCERTADA DE 2012 | mobilizar os jovens para lutar contra a exclusão, a intolerância e o racismo na acção política



A Comissão Nacional Justiça e Paz publica e divulga o documento intitulado Mobilizar os Jovens para Lutar Contra a Exclusão Social, a Intolerância e o Racismo na Acção Política, aderindo deste modo à Acção Concertada de 2012 da JUPAX EUROPA-Conferência das Comissões Europeias Justiça e Paz.
Neste documento, adaptação à realidade portuguesa do texto original da JUPAX EUROPA intitulado Investir nos Jovens para Combater o Racismo e o Extremismo Político, a CNJP apela à reconstrução da confiança dos jovens no sistema político, através da sua participação numa sociedade multicultural, que recusa a exclusão social, a intolerância e o racismo.
Até à presente data subscreveram este documento as Comissões Diocesanas Justiça e Paz de Aveiro, Leiria-Fátima, Portalegre-Castelo Branco e Setúbal.


                  MOBILIZAR OS JOVENS PARA LUTAR CONTRA A EXCLUSÃO, A INTOLERÂNCIA E O RACISMO NA ACÇÃO POLITICA
A Europa atravessa uma crise profunda que atinge a generalidade dos cidadãos e em particular os jovens. De facto, estão criadas as condições para um número crescente de jovens ver o futuro com apreensão e medo Não se vislumbram formas de obter meios que garantam uma vida digna, própria de uma sociedade que promove a justiça e a equidade. Muitos sentirão que o tempo que gastaram na formação académica foi perdido porque não vão conseguir encontrar emprego para as suas habilitações. O recurso à emigração revela-se para outros um caminho cheio de dificuldades. Por outro lado, muitos jovens entendem que Governantes e detentores do poder económico não levam a sério esta situação que afecta a juventude europeia e ameaça o seu futuro
Entre outras consequências, os jovens ficam vulneráveis às influências de grupos de extremistas políticos com a intenção de desestabilizar os fundamentos democráticos das nossas sociedades. Neste quadro, é importante apelar aos Líderes Europeus que privilegiem o investimento nos jovens. É necessário garantir-lhes educação, formação, segurança e bem-estar. Se isso não for feito, é natural que muitos jovens se envolvem em acções xenófobas e extremistas em quadro de exclusão social e intolerância, ao invés de lutarem por uma sociedade respeitadora dos direitos humanos.
O Papa Bento XVI na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2012 – Educação dos Jovens para a Justiça e Paz - refere: «Nestes tempos sombrios a nossa esperança para o futuro está nos nossos jovens, cujo entusiasmo e idealismo pode oferecer uma nova esperança para o mundo». Mas o Papa não ignora, como é referido, a alienação e frustração experimentada por muitos jovens: «É importante que este mal-estar geral e seu idealismo subjacente recebam a devida atenção em todos os níveis da sociedade». Isto requer envolvimento das lideranças políticas, instituições financeiras, entidades patronais, Instituições de ensino, meios de comunicação, instituições de voluntariado, entre outros.
A educação (em sentido amplo) é de fundamental importância no combate ao racismo e extremismo político. E no que concerne à educação dos jovens há que ter em conta o seguinte:
a) A educação deve incluir valores. Os valores são tão importantes quanto o conhecimento. E deve-se ter presente que a dignidade da pessoa humana deve estar no centro de qualquer sistema de educação.
b) O Sistema de ensino deve preparar os jovens para viver numa sociedade globalizada e multicultural. A compreensão de culturas diferentes é um factor de enriquecimento e uma forma de quebrar o medo por aquele que é diferente. O próprio sistema de ensino deve proporcionar aos jovens experiências de inclusão e de multiculturalidade para que, para além de teoricamente adquirirem conhecimentos sobre estes temas, possam também vivê-los e experimentá-los. É adquirindo laços que ultrapassem as diferenças que os jovens podem abrir os seus horizontes da tolerância.
c) A educação é necessária para fomentar a participação e a cidadania. Ela pode ajudar a quebrar ciclos de pobreza e privação. Os sistemas de educação precisam preparar os jovens para participar na sociedade, e que inclui, de modo particular, a vida política.
d) A educação tem que levar em conta os desafios específicos enfrentados pelos jovens hoje. Vivemos num mundo globalizado e marcado pelo desenvolvimento de tecnologias de comunicação muito desenvolvidas. E como lembrou o Papa Bento XVI na encíclica «Caritas in veritate» «Enquanto a sociedade se torna mais globalizada, faz-nos vizinhos mas não nos faz irmãos (e irmãs)». A educação tem que preparar os jovens para este mundo novo fornecendo-lhes instrumentos de análise que impeçam a manipulação de ideias e a despersonalização dos indivíduos.
A Comissão Nacional Justiça e Paz, focalizada nas situações que envolvem os jovens, e em uníssono com a Conferência das Comissões Justiça e Paz da Europa, faz alguns apelos:
· «Pedimos aos nossos líderes políticos para levar a sério a necessidade de reconstruir a confiança dos jovens no sistema político, protegendo o seu bem-estar presente e futuro, como parte integrante da estratégia de recuperação económica».
· «Chamamos os nossos Ministros da Educação para garantir que, mesmo em difíceis circunstâncias económicas, a promoção de oportunidades educacionais para todos os jovens continua a ser uma prioridade».
· «Sublinhamos que a educação precisa de ser mais que desempenho académico. Ela deve preparar os jovens para participar numa sociedade cada vez mais multicultural e capazes de atingir o seu pleno potencial através do desenvolvimento cultural pessoal».
· «Pedimos aos nossos jovens que as suas preocupações com o futuro impliquem uma participação activa na sociedade, a busca de um conhecimento maior do sistema político e um esforço permanente em defesa da justiça e da paz.
Entende a Comissão Nacional Justiça e Paz que este conjunto de constatações, reflexões e apelos fazem todo o sentido na actual situação portuguesa. O desemprego juvenil atingiu números muito elevados. O emprego está sujeito à precariedade . As remunerações do 1º emprego são baixas e o sub-emprego foi-se generalizando. . Estas situações, potencialmente perigosas, podem gerar sentimentos de exclusão e intolerância, que desencadeiam o racismo e o extremismo político. Em Portugal há sinais ténues desta realidade, mas igualmente preocupantes. É necessário tomar consciência e agir sobre as causas do mal-estar, e progressivamente tentar eliminá-las. A responsabilidade é de todos: governo, políticos, empresários, movimentos sindicais, homens e mulheres de cultura e participação social, religiões e igrejas, jovens, crentes e não crentes.
Comissão Nacional Justiça e Paz
Maio de 2012














quinta-feira, 10 de maio de 2012

Família em crise ou crise da família?

Administração e economia de valores


Como ponto de partida para reflexão, vem-nos à memória a tese, defendida por um economista, do casamento como fenómeno despido de fundamentos éticos/morais/religiosos, para dar lugar a um conceito basicamente económico: o contrato matrimonial e, por isso, a família, existe e subsiste enquanto for economicamente vantajoso para cada um dos seus membros, realçando assim a eficiência económica do casamento e da família que por este se constitui.
Ainda em sede de sínteses do ano que findou, foi noticiado que o ano de 2011 assistiu a um decréscimo do número de divórcios, fato que, em concordância lógica com aquela tese, foi relacionado com a situação de crise financeira que as famílias portuguesas experienciam, como resposta das mesmas à necessidade, num contexto de crise, de aproveitamento dos recursos económicos, evitando a dispersão de meios com agravamento de custos individuais.
O sobreendividamento das famílias é uma realidade nacional, e uma realidade da qual as próprias famílias (só) agora, postas a descoberto pelo contexto da crise financeira, da dívida soberana e do euro, tomaram consciência: disso é cabal manifestação o crescente número de apresentações de pessoas singulares à insolvência que a atividade judiciária revela e que, no ano de 2011, ultrapassou o número de processos de insolvência de pessoas coletivas.
Quer se entenda como um risco natural da economia do mercado associada à expansão do mercado de crédito, quer se enverede pela teoria da responsabilização do devedor como alguém que se excedeu (ressalvadas circunstâncias imprevisíveis, como o desemprego ou a doença), o dito sobreendividamento teve e tem como efeito, inevitável, a redução, senão mesma privação, das disponibilidades financeiras a que as famílias se (auto)habituaram, coadjuvadas então pela massiva publicitação e quase venda forçada do falacioso crédito fácil (com reduzida ou mesmo nula análise de risco e, por isso, alienada da capacidade de endividamento do mutuário).
Esta realidade, de cariz económico-financeiro, produz imediatamente problemas sociais; na sua maior profundidade, quando faz perigar a subsistência condigna e o acesso à educação e à saude.
Mas outras realidades sociais sobressaem. As alterações forçadas no habitual – ainda que a crédito - nível de vida material induzem à exclusão do convívio social e também familiar dos sobreendividados que, afastados do mercado de crédito e do mercado de bens e de serviços a que acediam e frequentavam, se colocam ou são colocados à margem dos padrões, espaços ou níveis que até aí partilhavam - diga-se, em boa verdade, numa coexistência circunstancial do acaso, centrada na materialidade das coisas, independentemente da sentida felicidade por elas proporcionada, desprovida, a mais das vezes, do sentido do dar e receber próprio do conceito de partilha (não vamos mais longe: o que é que tantos pais, mães, filhos, e até avós, fazem, reunidos, num sábado ou domingo à tarde, dentro de um centro comercial?, em busca da pílula dourada da felicidade?).
Confrontadas com a impossibilidade de manterem e prosseguirem o estilo de vida que para si (e para os outros) vinham hasteando, desponta e cresce o desânimo, a falta de autoestima, sentimentos negativos com forte pendor destrutivo no plano individual e que, qual doença contagiosa, se propaga à família – pais e filhos -, acabando por influenciar negativamente a capacidade e a vontade de reorganização financeira e profissional da pessoa e da família que com ela se constitui. O desânimo conduz ao isolamento, à ausência de esforço, aspirações e projetos de vida.
Num raciocínio de silogismo, somos então levados a concluir que as famílias estão fragilizadas pelo isolamento em boa medida em consequência da sua viciação nas propostas e ofertas de um consumo para satisfação de desejos imediatos, despidos de projeções no futuro.
Da repetição de comportamentos para a habitualidade, e desta para o comodismo reivindicativo de pretensos direitos adquiridos, facilmente se caiu – e assim nos encontramos - na faliciosa construção da perca de status como fator de risco para a dignidade humana assim concebida - consumista, imediata, de facilidades adquiridas, num contexto de multiplicação de necessidades artificialmente criadas, à margem do originário projeto da evolução qualitativa do homem (a escravidão sem realização).
Naturalmente que todos temos consciência que aqueles não são os ingredientes para a construção ou reabilitação do futuro. É tempo então para reflexão, uma que afaste os sentimentos de miserabilismo, comiseração e fatalidade que tende a enraizar-se, até porque se assim pensarmos, assim nos convencemos, e temos instalada a depressão nacional.
No plano da imediatez das soluções, a apresentação à insolvência representa, para os que assim se dispõem, ao aliviar da (de)pressão – muito (mas muito) mais do que a satisfação dos interesses dos credores, visa promover a reabilitação do endividado, desde logo como agente económico. O chamado fresh restart, alcançado pelo perdão das dívidas que permanecem por cumprir depois de esgotado o património do devedor e de decorrido um determinado período de provação (5 anos).
Importaria então por em prática e em toda a linha todo o conteúdo que ao fresh restart pode imputar-se, encarando o sofrimento pessoal e coletivo como a febre denunciadora de um mal sistémico e corrosivo que se impõe corrigir, tratar, curar, pela diferença de comportamentos, de atitudes, de revitalização dos valores que justificam a humanidade. Muito mais do que pelas medidas exógenas que nos são impostas, importaria evitar a repetição do fenómeno, sobretudo pela mudança que vem de dentro, construída em cada família e por ela alargada à sociedade enquanto célula que a sustenta.
E quanta esperança no futuro se razões houvesse para assumir que a redução do número de divórcios radica já nessa mudança, da família como núcleo de afeto e solidariedade gratuita – na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza – e não meramente assente em princípios económicos racionalistas e individualistas!

Amélia Rebelo
Juiz do Tribunal do Comércio | Comissão Justiça e Paz (Aveiro)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

DAR A VIDA COMO O BOM PASTOR


Georgino Rocha – CDJP-Aveiro
João lança mão de uma pedagogia de sinais, imagens, metáforas, alegorias e de outros recursos típicos da cultura dos destinatários dos seus escritos para apresentar a identidade de Jesus, sem reduções nem exageros. Após a cura do cego de nascença e do diálogo tenso que a envolve, a narrativa faz-nos pressentir a necessidade de uma afirmação clara, de uma definição precisa, de uma interpelação forte dos interlocutores. E recorre à parábola do rebanho que tem pastores mercenários e um outro que o não é.
Deste contraste emerge, dando continuidade à tradição bíblica do pastoreio, a apresentação de Jesus como aquele que oferece a sua vida por toda a humanidade (o rebanho congregado ou disperso, o que ouve a sua palavra ou ainda não, o que tem consciência de beneficiar da sua proximidade ou vive numa insensibilidade de indiferença), aquele que conhece cada um pelo seu nome e lhe presta os melhores cuidados, o que liberta do espaço fechado do redil e de tudo o que dá segurança, mas oprime e reduz horizontes de liberdade, o que vai à frente no longo caminhar da história e mostra haver sempre um futuro a aguardar, o que sabe acompanhar no percurso da vida, nas suas fases de tranquilidade ou de turbulência (caminho lhano, barrancos, solavancos, vertigens). Aquele que tudo faz para que tenhamos vida e vida em abundância. O Bom Pastor dá a vida pelos seus que são todos os seres humanos, toda a humanidade, sem qualquer restrição. Assim o rememora o celebrante na consagração do vinho na eucaristia ao dizer: “Este é o cálice do meu sangue, sangue da nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos”.
O espanto dos ouvintes não podia ser maior. Habituados que estavam ao estatuto dos mercenários, que surpresa, que contraste, que provocação! Os assalariados faziam normalmente um contracto de trabalho, com regras definidas, em que se previam situações de perigo iminente. Ocorrendo uma destas situações de risco sério de vida (como seria a incapacidade real de fazer frente ao atacante feroz e possante), o guarda do rebanho não era obrigado e oferecer-lhe resistência até à morte, a ser “comido” antes das ovelhas. Não desertava por cobardia, apenas procurava salvar o possível.
A classificação que Jesus dá a este proceder parece cáustica: desertor perante o mínimo sinal de perigo, guarda sem qualquer preocupação de vigilância, mercenário interessado apenas na paga que lhe é devida por contracto, fugitivo que busca a segurança e aguarda que a tormenta acalme e passe, – não lhe importam os estragos -, e ele possa começar a gerir os destroços até o rebanho se refazer ou o dono intervir para ajuste de contas.
O Bom Pastor identifica-se com a sorte dos que lhe estão confiados. Reconhece-se dom de Deus Pai – o Pastor por excelência – que se faz doação em Jesus Cristo e nas suas atitudes benevolentes. Quebra a lógica do dar para receber, do entregar-se para ser retribuído. Nesta relação não há troca, nem mais-valias e menos ainda malfeitorias. Como acontece frequentemente entre os humanos. O único desejo de Jesus, belo e generoso Pastor, expressa-se na vida e sua qualidade, abundante para todos, digna para cada um.
Este desejo faz-se projecto de vida a crescer que se vai realizando de muitos modos, mas sobretudo por meio das comunidades cristãs, onde a voz é escutada na proclamação da Palavra e a vida é alimentada na celebração da eucaristia. Comunidades que irradiam o rosto do Bom Pastor, solidárias com os que exercem a pastorícia – bispo e padres -, com os que assumem outros serviços e ministérios – diáconos e agentes pastorais – com os que discreta, mas persistentemente~, promovem o apostolado capilar, procurando ir aonde se encontra o necessitado.
As boas comunidades desafiam os seus pastores, ajudam a moldar as formas mais adequadas do seu serviço, apoiam-nos nos momentos de turbulência e desânimo, abrem-lhes horizontes de esperança pelo seu dinamismo e audácia criativa. Todos participam, cada um na sua modalidade, na missão do único e belo Pastor – Jesus Cristo que oferece livremente a sua vida por todos nós.






segunda-feira, 23 de abril de 2012

CDJP reuniu no dia 2012.04.21

 

Tendo como referência para discussão Pão e Esperança na mesa da “Família”

Sinais mais negativos… - “Os jovens temem não encontrar trabalho. Não conseguem projectar o seu futuro. Sentem-se bloqueados por um eterno presente feito de precaridade. Os pais têm medo de perder a reforma, a assistência social, de acabar na miséria. O resultado é uma existência guiada pela imobilidade, sem esperança de mobilidade social, uma espécie de hipertrofia do presente”1.

cdjp_Abril3
Estamos num processo em que todos os recordes negativos estão a ser batidos: desemprego estrutural que está a entranhar-se na economia (sobretudo também o desemprego entre os jovens); os números da emigração que crescem; os números das hipotecas por pagar que disparam; número de insolvências (empresas e particulares); etc. “Batemos todos os dias recordes de culpa, de medo e vergonha”2.
Sinais mais positivos… – Este ano o Banco Alimentar Contra a Fome faz 20 anos de existência. É um exemplo modelar de uma iniciativa e compromisso da Sociedade Civil, em termos de organização e solidariedade diante de um problema crónico e humilhante para a dignidade humana.

cdjp_Abril1
“O que eu sinto é uma enorme gratidão. Ainda há quem duvide que se pode acreditar nos empregados”, garante o empresário da Sicasal, que no dia em que a fábrica estava em chamas [15-11-2011] anunciou que não iria despedir nenhum dos seus 650 trabalhadores. (…) os trabalhadores excederam-se no resgaste da fábrica, inclusive aos fins de semana, na árdua tarefa de remover os escombros do sinistro, que destruiu um edifício inteiro”3.
Sinais para caminhar…4 - “O debate sobre a grave crise do SNS está quase exclusivamente centrado nos hospitais. Trata-se de uma preocupante deturpação conceptual, uma vez que algumas soluções, comprovadas internacionalmente, desenvolvem-se nas comunidades locais, nos cuidados continuados, na parceria com o apoio social e cuidados domiciliários”5.
Que significa para a vida pessoal e comunitária, as nossas distâncias e as nossas proximidades? Que é que nos forma, por dentro e por fora, de modo próprio ou apropriado? Sem Cuidado (cuidar de…) e sem Compromisso (comprometer-se com…), «não-chegamos-lá-a-tempo».

cdjp_Abril2
Precisamos de tempos fecundos para estarmos de modo inteiro. Sem pressas, sem desvios e dores de parto sem vida. Precisamos de encontrar espaços de paz, de justiça, de silêncio, e de contemplação. Os nossos problemas de hoje só serão resolvidos através de padrões criativos de «novo tempo» e «novo espaço», dignos da pessoa e comunidade humanas. Aí, e só então, aprenderemos a viver, e sobretudo, celebraremos o conviver.


Pedro José - CDJP, 11-04-2012, caracteres (incl. esp) 3650.

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1 BELANCIANO, Vítor, in Público – Revista, 08-04-2012, p.10.
2 MALHEIROS, José Vítor, “Recordes e mentiras” in Público, 10-04-2012, p.45. A multinacional norte-americana do sector químico, DOW CHEMICAL, vai fechar a unidade de produção de placas de esferovite que tem em Estarreja e que garante actualmente, 19 postos de trabalho. A fábrica que irá encerrar foi inaugurada em 2003 e ampliada seis anos mais tarde (Cfr. Público, 03-04-2012, p.15).
3 ANTUNES, Conceição, “SICASAL renasce das cinzas: recuperação. A união entre patrão e trabalhadores deu frutos: na área destruída pelo fogo, a produção vai agora duplicar”, in Expresso, 21-01-2012, p.15.
4 Breve leitura de confronto/aprofundamento: AAVV, “Desigualdades em Portugal: Problemas e propostas”, Coord. RENATO MIGUEL do CARMO, Edições 70 – Coleção de bolso Le Monde Diplomatique, Lisboa, 2011, pp. 127.
5 MOREIRA, Paulo, “Saúde, demagogias e pensamento único” in Público, 04-04-2012, p.47. Neste artigo o autor desenvolve 7 dimensões afectadas pelo enviés do debate: 1) Ideias?; 2) Actores?; 3) Cidadãos? 4) Resultados?; 5)Políticas de saúde?; 6) Regulação?; e 7) Indicadores de saúde?.