segunda-feira, 30 de abril de 2012

DAR A VIDA COMO O BOM PASTOR


Georgino Rocha – CDJP-Aveiro
João lança mão de uma pedagogia de sinais, imagens, metáforas, alegorias e de outros recursos típicos da cultura dos destinatários dos seus escritos para apresentar a identidade de Jesus, sem reduções nem exageros. Após a cura do cego de nascença e do diálogo tenso que a envolve, a narrativa faz-nos pressentir a necessidade de uma afirmação clara, de uma definição precisa, de uma interpelação forte dos interlocutores. E recorre à parábola do rebanho que tem pastores mercenários e um outro que o não é.
Deste contraste emerge, dando continuidade à tradição bíblica do pastoreio, a apresentação de Jesus como aquele que oferece a sua vida por toda a humanidade (o rebanho congregado ou disperso, o que ouve a sua palavra ou ainda não, o que tem consciência de beneficiar da sua proximidade ou vive numa insensibilidade de indiferença), aquele que conhece cada um pelo seu nome e lhe presta os melhores cuidados, o que liberta do espaço fechado do redil e de tudo o que dá segurança, mas oprime e reduz horizontes de liberdade, o que vai à frente no longo caminhar da história e mostra haver sempre um futuro a aguardar, o que sabe acompanhar no percurso da vida, nas suas fases de tranquilidade ou de turbulência (caminho lhano, barrancos, solavancos, vertigens). Aquele que tudo faz para que tenhamos vida e vida em abundância. O Bom Pastor dá a vida pelos seus que são todos os seres humanos, toda a humanidade, sem qualquer restrição. Assim o rememora o celebrante na consagração do vinho na eucaristia ao dizer: “Este é o cálice do meu sangue, sangue da nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos”.
O espanto dos ouvintes não podia ser maior. Habituados que estavam ao estatuto dos mercenários, que surpresa, que contraste, que provocação! Os assalariados faziam normalmente um contracto de trabalho, com regras definidas, em que se previam situações de perigo iminente. Ocorrendo uma destas situações de risco sério de vida (como seria a incapacidade real de fazer frente ao atacante feroz e possante), o guarda do rebanho não era obrigado e oferecer-lhe resistência até à morte, a ser “comido” antes das ovelhas. Não desertava por cobardia, apenas procurava salvar o possível.
A classificação que Jesus dá a este proceder parece cáustica: desertor perante o mínimo sinal de perigo, guarda sem qualquer preocupação de vigilância, mercenário interessado apenas na paga que lhe é devida por contracto, fugitivo que busca a segurança e aguarda que a tormenta acalme e passe, – não lhe importam os estragos -, e ele possa começar a gerir os destroços até o rebanho se refazer ou o dono intervir para ajuste de contas.
O Bom Pastor identifica-se com a sorte dos que lhe estão confiados. Reconhece-se dom de Deus Pai – o Pastor por excelência – que se faz doação em Jesus Cristo e nas suas atitudes benevolentes. Quebra a lógica do dar para receber, do entregar-se para ser retribuído. Nesta relação não há troca, nem mais-valias e menos ainda malfeitorias. Como acontece frequentemente entre os humanos. O único desejo de Jesus, belo e generoso Pastor, expressa-se na vida e sua qualidade, abundante para todos, digna para cada um.
Este desejo faz-se projecto de vida a crescer que se vai realizando de muitos modos, mas sobretudo por meio das comunidades cristãs, onde a voz é escutada na proclamação da Palavra e a vida é alimentada na celebração da eucaristia. Comunidades que irradiam o rosto do Bom Pastor, solidárias com os que exercem a pastorícia – bispo e padres -, com os que assumem outros serviços e ministérios – diáconos e agentes pastorais – com os que discreta, mas persistentemente~, promovem o apostolado capilar, procurando ir aonde se encontra o necessitado.
As boas comunidades desafiam os seus pastores, ajudam a moldar as formas mais adequadas do seu serviço, apoiam-nos nos momentos de turbulência e desânimo, abrem-lhes horizontes de esperança pelo seu dinamismo e audácia criativa. Todos participam, cada um na sua modalidade, na missão do único e belo Pastor – Jesus Cristo que oferece livremente a sua vida por todos nós.






segunda-feira, 23 de abril de 2012

CDJP reuniu no dia 2012.04.21

 

Tendo como referência para discussão Pão e Esperança na mesa da “Família”

Sinais mais negativos… - “Os jovens temem não encontrar trabalho. Não conseguem projectar o seu futuro. Sentem-se bloqueados por um eterno presente feito de precaridade. Os pais têm medo de perder a reforma, a assistência social, de acabar na miséria. O resultado é uma existência guiada pela imobilidade, sem esperança de mobilidade social, uma espécie de hipertrofia do presente”1.

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Estamos num processo em que todos os recordes negativos estão a ser batidos: desemprego estrutural que está a entranhar-se na economia (sobretudo também o desemprego entre os jovens); os números da emigração que crescem; os números das hipotecas por pagar que disparam; número de insolvências (empresas e particulares); etc. “Batemos todos os dias recordes de culpa, de medo e vergonha”2.
Sinais mais positivos… – Este ano o Banco Alimentar Contra a Fome faz 20 anos de existência. É um exemplo modelar de uma iniciativa e compromisso da Sociedade Civil, em termos de organização e solidariedade diante de um problema crónico e humilhante para a dignidade humana.

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“O que eu sinto é uma enorme gratidão. Ainda há quem duvide que se pode acreditar nos empregados”, garante o empresário da Sicasal, que no dia em que a fábrica estava em chamas [15-11-2011] anunciou que não iria despedir nenhum dos seus 650 trabalhadores. (…) os trabalhadores excederam-se no resgaste da fábrica, inclusive aos fins de semana, na árdua tarefa de remover os escombros do sinistro, que destruiu um edifício inteiro”3.
Sinais para caminhar…4 - “O debate sobre a grave crise do SNS está quase exclusivamente centrado nos hospitais. Trata-se de uma preocupante deturpação conceptual, uma vez que algumas soluções, comprovadas internacionalmente, desenvolvem-se nas comunidades locais, nos cuidados continuados, na parceria com o apoio social e cuidados domiciliários”5.
Que significa para a vida pessoal e comunitária, as nossas distâncias e as nossas proximidades? Que é que nos forma, por dentro e por fora, de modo próprio ou apropriado? Sem Cuidado (cuidar de…) e sem Compromisso (comprometer-se com…), «não-chegamos-lá-a-tempo».

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Precisamos de tempos fecundos para estarmos de modo inteiro. Sem pressas, sem desvios e dores de parto sem vida. Precisamos de encontrar espaços de paz, de justiça, de silêncio, e de contemplação. Os nossos problemas de hoje só serão resolvidos através de padrões criativos de «novo tempo» e «novo espaço», dignos da pessoa e comunidade humanas. Aí, e só então, aprenderemos a viver, e sobretudo, celebraremos o conviver.


Pedro José - CDJP, 11-04-2012, caracteres (incl. esp) 3650.

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1 BELANCIANO, Vítor, in Público – Revista, 08-04-2012, p.10.
2 MALHEIROS, José Vítor, “Recordes e mentiras” in Público, 10-04-2012, p.45. A multinacional norte-americana do sector químico, DOW CHEMICAL, vai fechar a unidade de produção de placas de esferovite que tem em Estarreja e que garante actualmente, 19 postos de trabalho. A fábrica que irá encerrar foi inaugurada em 2003 e ampliada seis anos mais tarde (Cfr. Público, 03-04-2012, p.15).
3 ANTUNES, Conceição, “SICASAL renasce das cinzas: recuperação. A união entre patrão e trabalhadores deu frutos: na área destruída pelo fogo, a produção vai agora duplicar”, in Expresso, 21-01-2012, p.15.
4 Breve leitura de confronto/aprofundamento: AAVV, “Desigualdades em Portugal: Problemas e propostas”, Coord. RENATO MIGUEL do CARMO, Edições 70 – Coleção de bolso Le Monde Diplomatique, Lisboa, 2011, pp. 127.
5 MOREIRA, Paulo, “Saúde, demagogias e pensamento único” in Público, 04-04-2012, p.47. Neste artigo o autor desenvolve 7 dimensões afectadas pelo enviés do debate: 1) Ideias?; 2) Actores?; 3) Cidadãos? 4) Resultados?; 5)Políticas de saúde?; 6) Regulação?; e 7) Indicadores de saúde?.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mensagem de Páscoa “Este é o dia do Senhor: alegremo-nos nele” (Sal 118)

 

António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro

Neste tempo de crise de civilização, o mundo precisa da Páscoa de Jesus, para aprender a dar a vida por amor e nessa dádiva divina encontrar uma palavra que afague tantos dramas…

1.A mais bela de todas as manhãs – a manhã de Páscoa – não começou com capas estendidas pelo chão da vida, com hossanas de multidões em alegria e em festa nem, tão pouco, com o testemunho corajoso e feliz dos discípulos.
Como estava já longe da memória do povo e distante do coração dos discípulos a entrada de Jesus na sua cidade! A cruz e a morte tinham dispersado as multidões e o medo tinha-se apoderado dos mais próximos.
A manhã de Páscoa começou com uma estranha e singela palavra, cheia de compaixão por parte de Jesus diante da tristeza preocupada de Maria, a mulher perdoada, que viu o sepulcro vazio: «Mulher, porque choras?» (Jo 20, 15).
O primeiro gesto de Jesus ressuscitado e a sua primeira palavra, depois da ressurreição, é consolar; é olhar o nosso olhar; é chamar pelo nosso nome. Um dia, tempo virá, em que «Deus enxugará, também, todas as lágrimas dos nossos olhos!» (Apoc 21, 4).
Neste tempo de crise de civilização, o mundo precisa da Páscoa de Jesus, para aprender a dar a vida por amor e nessa dádiva divina encontrar uma palavra que afague tantos dramas, um olhar que dê luz a tantos olhares que as lágrimas turbam e o pecado magoa e uma vida que alimente de nova e renascida esperança tantas vidas sem sentido, sem pão, sem trabalho, sem horizonte e sem rumo.
Que também nestes tempos de imperativa austeridade e de desiguais sacrifícios lembremos o sábio conselho afirmado em cada Páscoa judaica: «em tempos de opressão, não falte ao povo a esperança da liberdade! Em tempos de liberdade, não se lhe apague a lembrança da escravidão!» (Seder judaico).
Depois da manhã de Páscoa, Jesus chamou, ao longo da história da Igreja, milhares e milhares de pessoas pelo seu nome. A todos os que chamou, também enviou em missão para transmitir a Boa Nova das bem-aventuranças. A Páscoa é a festa de todos e para todos!
2.A ressurreição de Jesus é porta de tempos novos e aurora de vitória e alegria pascal. Deste triunfo de Jesus Cristo sobre o pecado e sobre a morte, os apóstolos, refeitos do medo inicial, dão-nos testemunho vivo. A vida cristã nasce deste acontecimento sempre novo e desta inabalável certeza: «Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas» (At 2, 32).
Aí, na Páscoa de Jesus, inicia-se o tempo da Igreja e todos nós daí partimos em caminhada pascal, apoiados pelo testemunho daqueles que viram e acreditaram. E a exemplo dos discípulos, tornamo-nos, também nós, sinais vivos deste mesmo poder da ressurreição que Deus coloca em acção na Igreja.
Os cinquenta dias que prolongam, na liturgia da Igreja, a Páscoa e dela fazem uma festa ininterrupta são dados aos cristãos para renovar as suas vidas e fortalecer a sua fé na ressurreição de Jesus, de Quem são chamados a ser testemunhas.
3. Vamos viver, na diocese de Aveiro, este tempo pascal em Caminhada de itinerário pastoral com as famílias para que, com a força da vida, do amor e da fé nascida da Páscoa, as famílias da diocese se reconheçam no seu melhor e se valorizem no testemunho e na missão.
Importa que cada família sinta o seu amor vivificado pela palavra de Deus, iluminado pela palavra da Igreja e alimentado pela palavra da vida. Sabemos bem quanto a família é para cada um de nós um dom como berço da vida, comunidade de amor, escola da fé e santuário da presença e da acção de Deus.
É nesta Igreja diocesana, fraternidade de famílias, que vemos confirmar a esperança, para que se concretize em cada comunidade cristã este modo de sermos família de famílias e se ajude cada família a ser evangelizadora no mundo.
Com este espírito pascal e nesta caminhada familiar tem renovado sentido fazer da Páscoa, prolongada celebração festiva em cada família ao longo de todo o tempo pascal, e viver, com acrescida alegria, os momentos maiores deste tempo como sejam a instituição de ministérios de Leitores e Acólitos a caminho do Presbiterado, a Semana das vocações, tantos outros sinais visíveis do amor de Deus por nós e de interpelação para o nosso modo de acolher os chamamentos por Deus semeados no campo fecundo das famílias de Aveiro, a merecer resposta pronta e acrescida generosidade.
No horizonte deste criativo modo de caminhar em família e com as famílias e quase já no culminar do tempo pascal viveremos todos com alegria e entusiasmo, como Igreja diocesana, a Festa das Famílias , no dia 20 de Maio, no Colégio de Calvão, em Vagos.
Votos de feliz Páscoa, assim continuada em todo o tempo pascal e assim vivida em família e em Igreja, com fermento novo de um mundo melhor e com anúncio festivo e próximo de uma Igreja em Missão Jubilar!


Aveiro, 3 de Abril de 2012

sábado, 31 de março de 2012

JESUS ENTRA NA CIDADE

 

Georgino Rocha | CDJP – Aveiro

Jerusalém é a meta desejada por Jesus ao longo de toda a sua caminhada em missão. Faz convergir tudo para esta cidade. Também as oportunidades como as festas da Páscoa que constituíam os “dias da pátria”. A elas, acorrem multidões que fazem triplicar a população residente. Enquanto duram, a azáfama é grande, sobretudo no templo, centro da vida religiosa e económica. A alegria torna-se irradiante e a “confusão” contagiante. E os chefes temem ver frustrada a sua armadilha e que grupos de insurrectos se aproveitem e provoquem alguma sublevação que obrigue os romanos a intervirem. A ocasião é propícia para reivindicar a libertação nacional, alimentada pela esperança na vinda de um messias vigoroso e triunfante.
Jesus entra na cidade, não às escondidas, mas publicamente. Escolhe um modo exemplar, desconcertante. Percorre as ruas tapetadas de flores de embelezamento e de palmas de vitória montado num jumento – animal que simboliza o serviço humilde e gratuito -, aclamado por gente simples que manifesta o seu entusiasmo exuberante. O modo exemplar converte-se em símbolo com força de sentido para sempre.
Entra na cidade, espaço onde se organiza a vida social e económica, se cria e transmite a cultura, se administra a justiça, se realizam as festas religiosas que, além de louvar a Deus, irmanam as gentes e ajudam a conservar a identidade. Hoje, a cidade secular precisa de um novo dinamismo em todas as áreas da vida colectiva: organização que favorece a participação de todos os cidadãos, que reparte o trabalho por todos de modo a faz chegar os bens a casa de cada um, que cuida com especial cuidado os valores dignos da condição humana, que administra a justiça com rectidão e sem delongas, que cria espaço para as festas religiosas que exprimem o que melhor vivenciam os cidadãos crentes. A cidade secular não pode ser humanizada sem a festa popular, onde os cidadãos se encontram e partilham tradições e projetos, vivenciam o tempo, rememoram o passado, abrem as “janelas” ao futuro colectivo e afirmam a sua identidade comum mais profunda.
Entra na cidade, rede de relações humanas e de saberes, onde se cruzam e mutuamente se enriquecem o civismo e a proximidade, a ciência e a fé, o gosto de aprender e de ensinar, a prática do desporto por lazer e por competição, a convivência de gerações, os sonhos de futuro e as saudades feitas memória viva; cidade onde o realismo dá consistência à fantasia e o quotidiano desenha o estilo de vida solidário e fraterno. A cidade secular não pode abdicar desta capacidade de gerar “homens” novos que sabem afirmar a sua individualidade e potenciar a sua sociabilidade.
Jesus entra na cidade, comunidade onde o amor gera e está ao serviço da vida: na família de sangue ou de pertença, reduzida ou alargada; nas casas de acolhimento e de cuidados de pessoas doentes ou idosas; no voluntariado de vizinhança e de proximidade; nas instituições de solidariedade nas comunidades locais; nas atenções múltiplas aos “sem abrigo” de toda a espécie. A cidade secular necessita absolutamente destas fontes de vida, destes oásis de humanização, destas estalagens samaritanas.
Entra na cidade, santuário da consciência onde cada um se encontra consigo mesmo na sua autenticidade mais genuína e vai formando os critérios que levam a opções decisivas; se encontra com os outros no melhor das suas consciências e pode crescer em humanidade; se encontra com Deus e o seu amor de Pai e, como Jesus ensina, viver a relação filial, construir a cidade dos homens sabendo que está a lançar as sementes da cidade de Deus.
Entra na cidade para mostrar que é possível ter a paixão de ser positivamente diferente, de ter uma causa nobre pela qual confiadamente tudo se suporta.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

“À flor da nossa pele…”

Padre Pedro José | Comissão Justiça e Paz - Aveiro

Comentário: Mc 1,40-45: Ano B – VI Tempo Comum (12-02-2012)
«Vamos tornar o inimigo feio»; «Quem é feio é inimigo» – Umberto Eco.
«O modo como o Outro se apresenta, ultrapassando a ideia do Outro em mim, chamamo-lo, de facto, rosto» – Emmanuel Levinas.
«Jesus, ao curar o leproso, quer dizer para todos nós, cristãos, que nem a beleza, nem a feiúra, nem o cheiro, nem a cor são critérios para que as nossas peles se aproximem» – J.B. Libânio.
           Diante do milagre, devemos perguntar sobre o seu significado, e não ficarmos maravilhados com o seu impacto extraordinário. Não se trata de factos “exóticos e sobrenaturais”.
          Hoje a medicina consegue fazer melhor. Foi reativado, no nosso país, o transplante de fígado para crianças, uma realidade que exige muita especialização e dispendiosos cuidados de internamento. Muitas doenças que levaram a humanidade à morte estão vencidas. Mas outras voltam com mortes cruentas e em massa. Olhe-se à tuberculose com o respectivo perigo dos antibióticos sem efeito, etc. Outras doenças ainda estão por surgir…, sem pessimismos. É a nossa frágil condição humana.
            O sentido do milagre é o próprio Jesus. Hoje na cura da terrível lepra, Ele curou a «nossa» pele. A pele é a «nossa» exterioridade; a nossa comunhão com o exterior; com o mundo à nossa volta. Pela pele – e sensíveis frieiras neste frio que sentimos… – percebemos a temperatura, percebemos que alguém está ao nosso lado. Temos ao extremo “pele de galinha”. Olhamos a pele e sentimos e evidência do Rosto. Jesus vai no profundo mistério da pele humana, e toca. O leproso (das piores doenças que afectam o nosso exterior…) deixou-se tocar.
            Como nos comportamos? Há pessoas que não toleram a nossa presença física e logo arranjam desculpa para se afastar. Outras aproximam-se. O que a nossa pele rejeita ou recebe? A quem rejeita e a quem recebe? Jesus quer curar em nós essa incapacidade que a nossa «pele» tem de suportar o diferente; o feio…; o de outra etnia…; o de outra ‘formação’…; o de outra ‘terra’; o de outra ‘geração’; o de outro clube; o de outro partido; o de outro cheiro, etc.
        Até àquele momento o leproso não podia ser tocado por ninguém e também não podia tocar em ninguém. E Jesus fez questão – o Evangelho diz: «compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe».

A pele não é apenas publicidade: eterna juventude sem rugas! A pele não é o lugar da beleza com rótulos, estereótipos de capa de revista! A pele não é malícia, falsa beleza física, inocência perversa, ou pudor farisaico. A nossa pele somos nós em contacto, de comunhão simples, limpo sem artifícios de valorização desnecessária. A pele é a nossa capacidade de acolhimento colocando à prova a nossa bondade, sem preconceitos e medos. A nossa pele somos nós com a idade do amor e da ternura. Nossa pele somos nós com a temperatura da proximidade. O frio do egoísmo, o ardor do sacrifício e a brisa suave da beleza verdadeira. Nossa pele é a nossa comunicação em acto de abertura! Ao respeitar todas as peles, respeitamos todas as vidas!